Celebridades

O que dizer da fase Woody Allen onde ele se propôs a produzir um filme por ano e consegue reunir um elenco tão afiado que conseguem desempenhar papéis que, mesmo longe do seu brilhantismo, participam do universo do diretor de maneira tão orgânica? Temos aqui dois “Allens”: o escritor/roteirista Lee Simon (Kenneth Branagh), que possui sua baixo autoestima como gancho de todos os seus fracassos, e sua mulher, a professora Robin Simon (Judy Davis), cuja transformação à base de neurose e uma boa dose de sorte a torna a heroína às avessas da história.

Não há muito foco nos personagens, mas muito mais na atmosfera de Hollywood que faz pano de fundo às situações que testemunhamos. Vendo atores, atrizes, diretores, críticos e toda a fauna reunida como pessoas comuns, Allen destitui todo o brilho desses seres para aos poucos construí-los como mitos de mentirinha, frutos de mero capricho do destino. O que é mais genial no roteiro é que as coisas vão acontecendo de uma maneira tão natural e ao mesmo tempo os eventos sucedem no caminho oposto do que esperaríamos dos seus personagens principais.

O filme começa com a separação entre Lee e Robin. Robin está inconsolada, e parece que nunca voltará à tona. Já Lee encara tudo como um processo natural, e, apesar de romântico, está sempre à cata de celebridades para alimentar o seu ego massacrado pelo fato de saber ser ele um escritor medíocre fadado previamente ao fracasso.A partir daí o espectador precisa se atentar às nuances por trás dos acontecimentos. Nada é ao acaso, mas soa como se pudesse ser.

Com participações inspiradas — com destaque na sequência com Di Caprio — Allen conduz sua orquestra desafinada através de diálogos não particularmente brilhantes, mas que talvez por isso questionem tanto o papel das tais celebridades retratadas em preto e branco. Serão elas de fato o reflexo da sociedade? Como todo bom filmes de Allen, a questão está sempre em aberto.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-01-24 imdb