Champagne

2017/01/18

Champagne é uma divertida comédia dramática que esbanja críticas à alta sociedade. Em seu núcleo está a figura carismática e intensa de Betty Balfour, que faz, conforme o IMDB, “The Girl”. Em torno dela orbitam as pessoas comuns, que a veem como excêntrica. Mas, tudo bem, já que seu pai é rico. Mesmo se vestindo de empregada ela diverte e se diverte.

As expressões de Betty são as melhores partes do filme. Ela está sempre presente, e vê-la com toda sua energia gera hoje um sentimento melancólico a respeito de tão bons atores da geração do cinema mudo que se perderam. O estilo desse cinema é específico, e as atuações, quando migradas para o cinema falado, raramente funcionavam (O Artista é um filme que conta sobre esse trauma em Hollywood). Porém, Betty aqui brilha, e brilha mais quanto mais caricatas são suas expressões, seu jeito de arquejar os ombros, o olhar ao mesmo tempo doce e divertido. Ela está apenas tendo uma vida boa.

Você conhece pessoas assim. Extrovertidos no coração. Betty é uma delas, e até seus relacionamentos são uma fonte de diversão. Ela flerta com um senhor mais velho enquanto está apaixonada pelo mocinho mais novo. Ela gosta de correr pelo convés do navio onde participa de todas as festas glamorosas (ainda que ligeiramente bêbada pelo balanço do mar). Ela quando vê o pai com olhar preocupado consegue apenas fazer chacota. Ainda assim, ela recebe com uma certa tristeza a notícia de que seu pai está quebrado, e que agora ela terá que se virar como classe trabalhadora.

Ainda assim, a história de Walter C. Mycroft roteirizada por Alfred Hitchcock não estabelece limites para a diversão da garota. Como uma versão feminina de Carlitos, sua força não reside em seu dinheiro, mas em seu espírito. As reviravoltas do roteiro apenas confirmam isso, pois há uma dança de revelações a respeito dos personagens que parecem pouco importar para a garota.

E por outro lado, o diretor Alfred Hitchcock parece se divertir também imensamente. Ele faz transições com toalhas e começa e termina o filme mostrando a trucagem que criou: um ultra-zoom de uma taça de champanhe que mostra o que a pessoa que está bebendo está vendo enquanto bebe. Melhor utilizada em filmes de crime, aqui o artifício funciona justamente por conta da pista que revela sobre o inesperado final.

Hitchcock começa a se especializar em zombar da classe alta. Em determinado momento ele usa o cinema mudo ao seu favor, quando um cliente ricaço lê o cardápio e faz um gesto pedindo o prato. Esse gesto é repetido e repassado por quatro pessoas ao seu redor, como uma forma de comunicação. E logo no começo, quando o pai da moça pressiona todos os botões ao seu dispor em sua mesa, vemos pessoas correndo em fila em sua direção. A criatividade do diretor é sempre usada para estabelecer os ricos, ou pelo menos os multimilionários corporativistas, como criaturas grotescas e hilárias em suas caricaturas.

A mensagem do filme é tão difusa quanto sua protagonista. Não há muito mais personagens do que Betty Balfour. E guarde esse nome para sua próxima festa. Seja como ricaça ou cortesã, com certeza ela fará um enorme sucesso e se divertirá à beça.

★★★★☆ Título original: Champagne. País de origem: UK. Ano 1928. Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Alfred Hitchcock. Walter C. Mycroft. Eliot Stannard. Elenco: Betty Balfour (The Girl). Jean Bradin (The Boy). Ferdinand von Alten (The Man). Gordon Harker (The Father). Alexander D'Arcy. Vivian Gibson. Clifford Heatherley (The Manager). Claude Hulbert (Club Guest). Hannah Jones (Club Servant). Fotografia: Jack E. Cox. Duração: 86. Razão de aspecto: 1.33 : 1. Gênero: Comedy. Tags: torrent

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