Chocolat

Jun 3, 2016

Imagens

Mas é óbvio que é sobre racismo. Mas não é aquele racismo simplinho, com lição de moral e tudo. É um racismo bem parrudo, que discute não a visão socialista da coisa, partindo da coletividade. Até porque à essa altura do campeonato nós já sabemos que a coletividade sempre será ignorante quando se comporta como massa (e até por isso uma visão socialista seria também ignorante, por tabela). Não. Este é um filme que fala do indivíduo, de seu crescimento pessoal, e também fala do humor, e da sua evolução. Essa evolução começou graças a uma dupla de palhaços que se uniram, um branco, outro preto, e a partir daí o mundo do circo nunca mais foi o mesmo.

Omar Sy é Rafael Padilla dit Chocolat, um rapaz que nasceu escravo e que começo o filme se exibindo em um circo do interior como um selvagem canibal. Ao conhecer George Footit (James Thierrée), um palhaço que passa por uma crise em sua carreira, ambos se unem para arriscar tudo em um formato nunca antes tentado: uma dupla de palhaços do tipo augusto (o engraçado/exagerado) e outro branco (o dominador da situação). Essa é uma formação clássica. O que nunca foi tentado é esse trocadilho pronto na própria formação: o branco é Footit, e o augusto (ou não-branco) é Chocolat, um negro.

Os negros na Paris de 1900 eram raros. Com o advento da massiva colonização do continente africano, eles passaram a conviver como servos e palhaços de uma aristocracia europeia completamente ignorante a respeito de raças. Por conta disso, a ridicularização do negro e sua comparação com macacos e seres inferiores e estúpidos apenas ajudou no sucesso da dupla histórica Footit e Chocolat.

O filme de Roschdy Zem, escrito por Cyril Gely, não se esquece que está narrando eventos históricos da maior importância para a história do circo e da própria comédia, e conta tudo como se estivesse narrando um épico. A direção de arte, figurino e trilha sonora mais que ajudam, criando um universo fascinante e lúdico. As transições rápidas e inteligentes conseguem montar um verdadeiro mosaico temporal onde vamos observando a evolução dos dois personagens.

Porém, tudo isso tem um objetivo maior: contar a história de um homem com potencial, que soube aproveitá-lo, mas que não conseguiu utilizá-lo para ser aceito na sociedade em sua volta pelo simples fato de ser negro. A comédia, o teatro, a pobreza e riqueza estão lá, para florear. O show business se torna um assunto-suporte de um filme que está de fato falando para o espectador: note como as piadas, tapas e chutes no negro são ofensivas para nós hoje, mas eram motivos de gargalhadas antes para todas as pessoas.

Nesse sentido, “Chocolat” é um filme único, pois consegue entreter, divertir e ainda funcionar como crítica e reflexão sobre o racismo. Não exatamente complexo como 12 Anos de Escravidão, nem tão doce quanto Conduzindo Miss Daisy. Porém, exatamente no ponto em que conseguimos apreciar o espetáculo e também pensar sobre como éramos, como seres humanos, tão primitivos, e ao mesmo tempo observarmos o ponto de vista de Rafael, sendo alvo dessas piadas, sendo preso, tentando virar um ator sério.

Com excelentes momentos espalhados pelo filme, mas com um conjunto ainda melhor, perde apenas parte do controle ao tentar, como toda biografia, encaixar muitos detalhes em pouco tempo. Ainda assim, todos esses detalhes fazem parte do filme, o que não deixa também de ser algo notável.

Wanderley Caloni, 2016-06-03. Chocolat. Chocolat (France, 2015). Dirigido por Roschdy Zem. Escrito por Cyril Gely, Olivier Gorce, Gérard Noiriel, Roschdy Zem. Com Omar Sy, James Thierrée, Clotilde Hesme, Olivier Gourmet, Frédéric Pierrot, Noémie Lvovsky, Alice de Lencquesaing, Alex Descas, Olivier Rabourdin. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).