Chuck Norris vs. Communism

2017/03/26

Não é nenhum segredo que para existir o comunismo em um mundo capitalista todas as barreiras precisam ser fechadas. Isso evita que a população faminta por recursos e ideias seja seduzida pelo caminho da liberdade e mantém o ditador da vez em posição mais confortável para espalhar suas mentiras. No caso da Romênia, no entanto, havia uma falha que foi se alastrando pelas duas décadas de regime totalitarista. Uma falha que apenas uma figura equivalente ao americano Chuck Norris em sua versão romena poderia explorar: o Cinema norte-americano.

E, para tristeza desse povo, o cinema estadunidense estava em uma grande fase de filmes de ação, romances e dramas que povoavam a mente e o imaginário coletivo em décadas de um mundo em constante e acelerada mudança. A mudança, no entanto, não era sentida nas ruas da Romênia, tão congelada quanto qualquer nação soviética daquela época, com seus carros caindo aos pedaços, prédios que lembravam o romance 1984 e artefatos da Guerra Fria como espionagem, sabotagem e delações premiadas entre a população.

E é a aposta nesse clima conspiracionista que o diretor/roteirista Ilinca Calugareanu acerta em cheio na abordagem do seu documentário. Entrevistando pessoas da época das mais diversas idades, que assistiam às fitas VHS clandestinas dos filmes hollywoodianos, Calugareanu vai remontando aquela realidade em um filme paralelo com todos os elementos de filmes que abordavam o socialismo ultra-totalitário na época. Elevadores antigos, nevoeiros cobrindo casas isoladas no meio da floresta. Oficiais subornados e subornando e um empresário no ramo do tráfico e dublagem de fitas de filmes importados.

Tudo isso faz lembrar que hoje a Romênia livre é fonte de uma cinematografia irresistível. Inovadora em vários aspectos do Cinema contemporâneo, nem parece que o país se manteve fechado suas salas de projeção por tanto tempo. E, de fato, ao assistir Chuck Norris vs. Communism, vemos que ela de fato não se fechou. A liberdade capitalista sempre encontra uma forma de se fazer valer, ainda que às custas de pessoas passando fome, elas pelo menos tinham a esperança de um dia o pesadelo acabar e elas se tornaram um país do rico Ocidente.

Uma das figuras centrais dessa revolução interna foi a dubladora Irina Margareta Nistor, a voz mais conhecida do país para os que assistiam os filmes pirateados. Irina dublava todas as vozes por cima das originais. E era o que tinha na época. E, mesmo assim, era o suficiente para as crianças acreditarem que Chuck Norris realmente estava fugindo em seu camburão enterrado no solo, e que Rocky acordava todo dia às 5 da manhã, comia seu ovo e saía para treinar nas ruas da Filadélfia.

Mais do que liberdade de expressão, o que essas pessoas ganhavam com o tráfico de fitas e vídeos-cassetes era a possibilidade de sonhar. E o sonho dessas pessoas crescendo por anos, de acordo com o longa, foi o responsável pela abertura política do país. Claro que Calugareanu parece estar puxando sardinha para seu tema, e é muito difícil levar ao pé da letra todos os depoimentos e todo o aparente impacto que os filmes tiveram na vida dessas pessoas. Mas assim como também é impossível confiar em números oficiais do governo, um pouco de verdade, ainda que pouco, sempre irá escapar da maquiagem que cobre qualquer realidade macabra.

★★★★☆ Chuck Norris vs. Communism. UK, 2015. Direction: Ilinca Calugareanu. Script: Ilinca Calugareanu. Cast: Irina Margareta Nistor (Herself). Ana Maria Moldovan (Irina Margareta Nistor). Dan Chiorean (Teodor Zamfir). Valentin Oncu (Mircea). Cristian Stanca (Orzan). Petre Bacioiu (Petrulea). Elena Ivanca (Mrs. Cristea). Florin Mircea (Mihaies). Ileana Negru (Mrs. Urse). Edition: Ilinca Calugareanu. Per K. Kirkegaard. Cinematography: Jose Ruiz. Soundtrack: Rob Manning. Anne Nikitin. Runtime: 78. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Documentary. Category: movies Tags: netflix

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