Cidade de Deus

Nunca mais havia assistido Cidade de Deus depois de sua estreia no cinema, em 2002. Agora, treze anos depois e com 999 filmes no meu “currículo” de cinéfilo dedicado, escolhi esse filme para fazer o que meu amigo chamou de “Pelé das reviews”. Portanto, esse é meu filme número 1000 do Cine Tênis Verde.

Mesmo depois de tanto tempo, eu lembrava de muitos momentos icônicos do pesadíssimo filme de Fernando Meirelles, como a escolha de um garoto entre quais de dois garotos mais novos que ele ele deveria matar, ou um bando de assassinos rezando um pai-nosso para protegê-los de todo o mal, ou tantas outras cenas que formam um mosaico muito bem elaborado pela equipe de Meirelles e que merecidamente ganhou as graças do público e da crítica mundo afora. É interessante também constatar que a frase mais famosa do filme – “Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno, porra!” – tem sua função, mas hoje parece longe de figurar entre os incontáveis momentos marcantes dessa pequena obra-prima.

Não à toa, foram indicados ao Oscar naquele ano o editor Daniel Rezende – Tropa de Elite e A Árvore da Vida– o fotógrafo César Charlone – O Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira – o roteirista Bráulio Mantovani – os marcantes Tropa de Elite 1, 2 e Chega de Saudade – e, claro, Meirelles pela direção. Não foi indicado a melhor filme, nem estrangeiro, mas figura entre os 30 melhores filmes no top ranking do IMDB. Serviu de estopim para que essa equipe conseguisse trabalhos ambiciosos em Hollywood, além dos holofotes atingirem também a linda Alice Braga e entre o elenco termos ninguém menos que Seu Jorge fazendo o justiceiro Mané Galinha. De toda forma, a grande maioria do elenco é de moradores da própria favela, onde foi feito um extenso programa de formação e seleção de candidatos. O resultado é um filme naturalista ao extremo, ainda que estilizado com uma técnica impressionante.

Não é só com fama e momentos isolados que o filme consegue, treze anos depois, ainda impactar. O grande trunfo de Cidade de Deus é conter, sim, cenas fortes e violentas, mas antes fazer com que nos importemos com os personagens que sofrem o que parece ser um enorme círculo vicioso de violência e descaso que massacra vidas e almas por décadas a fio na favela que leva o nome do filme. Baseado em fatos reais, a história desses personagens percorre duas décadas e consegue manter um fio da meada desde seu começo – a perseguição de uma galinha que foge do seu destino em um churrasco – até o seu final, onde voltamos para aquela mesma cena, mas agora entendendo toda a dinâmica daquelas pessoas, sabendo de antemão o que há por trás do que irá acontecer em seguida.

E entendemos de imediato o simbolismo de uma galinha fugindo desesperadamente do seu óbvio e trágico destino.

A história envolve diferentes personagens em diferentes situações, que vão se apresentando conforme a ação passa por eles. Nosso narrador em off, Buscapé, é um deles, e talvez o personagem-chave, pois possui o conhecimento desde a infância. Outros, como Dadinho, só se tornaram importantes na adolescência, mas o roteiro de Mantovani consegue situá-los antes mesmo que tenhamos ciência de seus papéis no futuro.

Ao mesmo tempo, uma edição fluida e com muitas trucagens envolvendo movimentos de câmera consegue traçar longos arcos temporais e temáticos parecendo que quase nunca há de fato uma pausa muito longa. Quando ela ocorre, é porque algo muito impactante ocorreu, como a morte de um personagem extremamente importante na dinâmica das bocas de fumo da favela.

É difícil explicar com detalhes o psique de cada personagem, mas é fascinante perceber no quadro geral da história como eles representam, cada um à sua maneira, pequenos traços de uma realidade no Rio de Janeiro que reflete com uma precisão naturalista e engenhosa não aquela balela de “função social”, mas as possíveis tomadas de decisão de um indivíduo que nasce e cresce em um ambiente como aquele. Se tornar bandido, ou melhor dizendo, um bandido do tráfico, envolve uma cadeia hierárquica rebuscada, mas com riscos a cada novo degrau. No entanto, mais complexo ainda é conseguir conviver no mesmo ambiente e não se envolver com toda aquela realidade em sua volta. O filme arrisca dizer que isso é inevitável, e talvez seja mesmo, ainda que apenas nesse microcosmos formado no filme, que se assume como uma tragédia grega, e onde todas as pessoas que se cruza na rua terão um papel significativo, e geralmente quase nenhuma possibilidade de escolha, ou nenhuma escolha que preste de verdade.

Cidade de Deus é o Pixote: A Lei do Mais Fraco atualizado e ampliado. Não há heróis nem vilões em senso estrito, mas muitas vezes um herói se destaca por não fazer nada, ou evitar fazer alguma coisa que, dadas as circunstâncias, seria o esperado. Ou talvez seja tudo uma doce ilusão, e um golpe de sorte ou azar transforma radicalmente o destino de uma pessoa. Não importa. De uma forma ou de outra, os personagens do filme estarão sempre alheios ao seu ambiente, pois são fracos, alienados, ignorantes e ao mesmo tempo antenados com o que se deve fazer para ser bem-sucedido em Cidade de Deus: “passar geral” antes que você morra.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-12-30 imdb