Cinquenta Tons de Cinza

Anastasia e Christian Grey. Esses nomes serão difíceis de esquecer, já que são repetidos muitas vezes em Cinquenta Tons de Cinza, cujo título remete ao personagem de Mr. Grey, “cinza” em inglês, um trocadilho que foi perdido na tradução do Brasil. Se pelo menos tivessem usado a mesma estratégia de Metastasis, uma série-remake versão latina da norte-americana Breaking Bad, que rebatiza seus personagens para que mantenham os nomes e cores, talvez pudessem extravasar o lado cômico e leve deste filme que, por mais roupas sendo arrancadas e chicotes sendo levantados por minuto, continua sendo uma trivialidade para países menos puritanos.

Quem são Ana e Grey também não é algo difícil de lembrar, pois suas descrições quase não passam do próprio nome e seus atributos físicos. Ele é um jovem bilionário do vale do Silício – seu discurso para formandos me diz “reencarnação de Steve Jobs com sérios problemas para sorrir”. Ela (Dakota Johnson?), uma estudante de literatura inglesa que atrai a atenção de Mr. Grey através do seu sarcasmo tímido ao entrevistá-lo no lugar de sua colega de quarto. Você sabe como uma jovem mulher de humanas costuma se comportar em situações como essa, ou pelo menos esse roteiro peculiar de Kelly Marcel (Walt nos Bastidores de Mary Poppins), adaptado do romance de E.L. James,imagina saber: elas gostam de defender bandeiras de minorias, simplificar o sucesso dos outros com palavras como “sorte” e, por fim, acreditar no amor livre e desinteressado. A menos, é claro, que ela esteja de frente – ou na frente, agachada – de um rapaz sexy, endinheirado e que revela que irá fodê-la. E com força. Ah, isso conquista qualquer intelectual.

Mas não deixemos apenas com Ana os méritos de uma relação em que o casal parece de certa forma se merecer. Christian Grey (Jamie Dornan) tem tudo na vida, em grande escala e sempre muito limpo, sofisticado e bonito. Até seu motorista é bonitão. Seu único”defeito” é ser um pervertido sexual. Um dominador. Algo que, convenhamos, tendo tanto dinheiro e ainda a geração internet ao seu dispor, não tornaria difícil encontrar seu par perfeito: uma “submissa” linda (em grande escala) e limpa. Isso em qualquer lugar do mundo. Um estalar de dedos e a traria voando (literalmente) para o seu quarto do prazer (um nome que me faz cair no sono). Assim ninguém se machuca e todos aproveitam. A não ser que Christian, além de ser um pervertido, seja um maníaco obsessivo, que insiste que Ana deve ficar longe dele, mas que sempre a traz mais para perto e que ainda assim faz questão de deixar claro que não haverá amor em sua eventual relação.

Aí é que está a questão. Se não há amor, se é uma relação carnal onde o macho-alfa trata sua fêmea como um objeto pronto para satisfazê-lo sem nunca dormir com ele nem ser levada para sair (ou talvez por uma noite), não é uma relação. Ou pelo menos uma relação que uma das partes espera. Talvez nenhum dos dois espere por isso. Mr. Grey, o Sr. já ouviu falar de internet? E classificados?

Há partes na história em que os pais do casal são apresentados, além da amiga de Ana e o irmão de Grey, que fazem sexo como a sociedade espera. Tudo leva a crer que o filme quer que vejamos como pessoas pervertidas podem passar despercebidas. Sabe quem mais pode passar despercebido? Gays. E isso não é um escândalo. Por que seria no caso de um dominador e sua submissa? Por que parece ainda haver julgamentos nessa relação? Talvez o filme tenha seu motivo de existência em um experimento social. Por ser um sucesso de público podemos observar a reação das massas, em diferentes culturas, classes sociais e credos.

Pena que é um experimento muito chato. As cenas de sexo, devidamente higienizadas e protegidas, lembram mais um procedimento cirúrgico para tratar de um paciente doente. Dá sono. Mais divertidas são as incursões filosóficas em Ninfomaníaca, de Lars von Trier. O paciente sendo tratado é Mr. Grey, mas a sociedade, começando pelo diretor e roteirista, é que parece doente. O próprio filme parece sutilmente condenar o relacionamento que tenta ser vendido como algo engraçado, além do fato de um bilionário do setor de tecnologia sofrer para conseguir seu brinquedinho sexual. E é engraçado.

Engraçado justamente por isso: Mr. Grey, você não conhece a internet?

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2015-02-28. Cinquenta Tons de Cinza. Fifty Shades of Grey (USA, 2015). Dirigido por Sam Taylor-Johnson. Escrito por Kelly Marcel, E.L. James. Com Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Victor Rasuk, Luke Grimes, Marcia Gay Harden, Rita Ora, Max Martini. imdb