Cinquenta Tons Mais Escuros

2017/02/16

Eu não sei se a bronca pela série de filmes com Christian Grey e Anastácia Steel (esses nomes são bons, não?) é porque as feministas ficam com nojo de um casal normal, com problemas como todo mundo, e com preferências sexuais particulares (como todo mundo) ou elas abraçaram, assim como os conservadores, a noção patética que existe apenas uma forma de ser feliz, e ela não pode de maneira alguma ter relação com a vida de um bilionário de sucesso. Principalmente se ele trata suas mulheres como cãezinhos submissos. Se bem que, em se tratando de uma vida de luxo e segurança, qual o problema de dar alguns latidos e levar algumas palmadas de vez em quando?

Bom, minha bronca com a série é diferente. Pra mim a primeira parte da “saga” (tem essa mania agora de chamar tudo de saga, não?) soa, de vez em quando, exatamente como o primeiro filme da saga Crepúsculo: uma comédia incidental, que funciona como comédia, mas… não era bem esse o objetivo. Já no caso desses Cinquenta Tons Mais Escuros, ele soa como uma novelinha pior que os romances apimentados de Sabrina, os livretos mais populares entre as senhoras na menopausa.

Pior em que sentido? No pior dos sentidos para um cinéfilo: nada acontece. O filme é uma (bem) longa introdução que nunca termina. E para disfarçar um pouco de tensão, uma arma é disparada e um helicóptero sofre uma pane.

Não que ver um casal desenvolvendo sua relação não possa ser fascinante, como o diretor Richard Linklater já nos provou em sua Trilogia do Amanhecer através de Céline e o rapaz interpretado por Ethan Hawke. As discussões naturalistas, existencialistas e filosóficas dos personagens de Linklater são tão atraentes que poderíamos de fato acompanhar uma conversa dessas até o amanhecer, até o por-do-sol e até meia-noite. Já na trilogia cinza… não há nada demais. É de fato um casal comum, e não consigo entender a fascinação das pessoas em torno desse lance de bsdm. Deve ser porque a vidinha da maioria é tão medíocre que um pouco de excitação soe escandaloso demais.

Já alguns poderiam torcer para que o casal fique junto, vencendo os traumas de Grey e os preconceitos vergonhosos de Ana. Eu nem tanto. Para mim, tanto faz. Até onde me consta, se pelo menos eles morressem, fossem mutilados ou passassem por uma mudança realmente radical em suas vidas, pelo menos a história seria melhor. Talvez um ménage… do jeito que está, “Tons Mais Escuros” é como assistir um Big Brother fantasioso com apenas duas pessoas. Ah, sim, acrescente uma louquinha rejeitada (sempre tem uma) e um chefe assediador de menininhas (sempre tem um). Algumas mensagens do filme ainda soam politicamente correta, olhem só: cuidado com chefes safadinhos e, se você calhou de ser a masoquista em uma relação antiga, mas foi chutada, viva e deixe viver. Não, não corte os pulsos. Uma bela (e útil) mensagem, se for parar para pensar.

E qual seria a mensagem de sexo deste filme tão comportadinho? Talvez… Dakota Johnson não tem medo de mostrar seu corpo porque não há muita coisa para mostrar. O que remete justamente a como a trama tem se desenvolvido nesses dois filmes: vivemos juntos desse casal, principalmente do ponto de vista de Ana, mas no fundo vamos percebendo que não há nada para mostrar. Talvez nada sequer para aprender. Uma boa visita na Wikipédia talvez mate melhor essa curiosidade sobre BDSM. Nada como ter internet nos dias de hoje.

O roteiro de Niall Leonard baseado no romance de E.L. James baseado em seu fan-fiction baseado em Crepúsculo (tudo se encaixa agora) parece temer tirar detalhes ou diálogos que possam estar no livro, mas com isso torna o conteúdo extremamente hermético, já que apenas quem acompanhou todos os diálogos e acontecimentos do romance poderão degustar com prazer o filme como uma versão idealizada de suas mentes. Um filme deveria conter muito mais que um romance verbalizado.

E é por isso que é até louvável a competência do diretor James Foley (House of Cards) em conseguir tomar as rédeas de um projeto tão injusto, conseguindo no processo tornar quase todo o conteúdo de Niall Leonard palatável até para quem nunca ouviu falar em um fan-ficion. O ritmo de Foley é sóbrio ao conduzir um roteiro burocrático que precisa apenas converter parte das palavras de E.L. James em mais milhões de dólares “hollywoodizados”. E o que dizer de uma fotografia esteticamente impecável de John Schwartzman (O Espetacular Homem-Aranha), que avança em tornar a película ligeiramente mais “dark” em um mundo sombrio e sanitizado, em que jovens bilionários do Vale do Silício decidem quem irá ajoelhar dessa vez, mas que também têm o direito ao amor por serem abusados e sofrerem traumas na infância (seria romântico se não fosse cínico).

Talvez “Cinquenta Tons” fosse um trabalho necessário nessa época cínica onde “o dinheiro não importa” mas “casaria com ele na hora, mesmo que apanhasse”. Se analisarmos como um romance, ainda é impossível dizer o que Christian Grey viu em Anastasia Steele e vice-versa, exceto seus bons nomes. E o BDSM é um pequeno detalhe que conduz o fiapo de trama em torno desde interminável Big Brother versão reduzida, onde os personagens secundários são os verdadeiros tons de cores cinzentas, ao nunca se pronunciarem, e servirem como marionetes que conduzam a ação do casal. Afinal de contas, você não entrou nessa sessão para ver cenas picantes de sexo, entrou?

★★★☆☆ Título original: Fifty Shades Darker. País de origem: USA. Ano 2017. Direção: James Foley. Roteiro: Niall Leonard. E.L. James. Elenco: Dakota Johnson (Anastasia Steele). Jamie Dornan (Christian Grey). Eric Johnson (Jack Hyde). Eloise Mumford (Kate Kavanagh). Bella Heathcote (Leila). Rita Ora (Mia Grey). Luke Grimes (Elliot Grey). Victor Rasuk (Jose). Max Martini (Taylor). Edição: Richard Francis-Bruce. Fotografia: John Schwartzman. Trilha Sonora: Danny Elfman. Duração: 118. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Drama. Tags: cinema

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