Círculo de Fogo

Aug 10, 2013

Imagens

Ao contrário de Homem de Aço, que apesar de voar se esforça em manter seus dois pés no chão da realidade, Círculo de Fogo parece navegar por outras águas, sempre disposto a impulsionar sua fantasia em direção daquele mundinho que habita nossa mente de criança (espero que você ainda a tenha) em busca de desafios cada vez maiores para nossos gigantes heróis.

Inspirado diretamente das séries japonesas de Eras atrás (estou olhando para vocês, Jaspion / Changeman / Spectroman) a narração introdutória explica como monstros que surgiram do Oceano Pacífico através de uma espécie de portal para outra dimensão/universo impulsionaram as nações a construir o sonho de consumo de qualquer jovem: um robô gigante para esmagar as criaturas dos mares. Embora condicionado no conhecido formato americano de fazer Cinema (que obriga os heróis a terem dramas e fantasmas pessoais do seu passado para resolver), a boa notícia é que a alma oriental permanece, pelo menos nos momentos mais icônicos, o que faz a película vibrar em momentos pontuais, mas em quantidade suficiente para segurar a tensão.

Eu diria até mais: impulsionado pela música que cria um tema fácil de saborear pelas mentes mais simples, Círculo de Fogo gera momentos de fazer vibrar pela sua “reimaginaçao” em um CGI estupidamente bem elaborado. Em seu momento mais inspirado (envolvendo uma certa cena aérea e um desfecho inesperado) é capaz de arrancar aplausos que surgem da plateia quase que naturalmente.

O uso do 3D, embora com propensão a dores de cabeça nas cenas movimentadas, é inteligente em sua concepção: como quase todas as cenas de luta ocorrem na água e/ou sob pesada chuva as inúmeras gotículas em suspensão criam a sensação de profundidade todo o tempo. Do lado de dentro dos robôs, painéis suspensos no ar também nos ajudam nessa imersão. Outros dois indícios confirmam as boas intenções do diretor para com a tecnologia: a profundidade quando “observamos a mente” dos pilotos durante sua conexão com a máquina e algumas cenas que colocam pessoas à frente e monstros no fundo, em uma óbvia brincadeira com as séries originais, que constantemente faziam colagens nesse estilo usando a velha técnica de projeção ao fundo; aqui, a projeção é em 3D.

Mas nem tudo são robôs, e os cientistas engraçadinhos se saem bem mais ou menos, ainda que façam parte da tal homenagem. Também não é razoável dizer que a história pessoal dos personagens, assim como os próprios personagens, exercem qualquer tipo de influência positiva ou negativa no resultado final.

No fundo o que importa mesmo são as lutas corpo a corpo (ou lata). As máquinas criadas pelo homem são estupidamente grandes e fortes, mas seus movimentos gigantescos são coreografados de forma lenta, dando a sensação de fragilidade em frente aos monstros, que parecem dotados de uma rapidez natural e orgânica. O resultado na maioria das vezes é que, mesmo com cenas memoráveis de ação, é fácil se confundir (e não é pra menos: na chuva, no escuro, envolto por criaturas mais escuras ainda).

Wanderley Caloni, 2013-08-10. Círculo de Fogo. Pacific Rim (USA, 2013). Dirigido por Guillermo del Toro. Escrito por Travis Beacham, Guillermo del Toro, Travis Beacham. Com Charlie Hunnam, Diego Klattenhoff, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Charlie Day, Burn Gorman, Max Martini, Robert Kazinsky, Clifton Collins Jr.. IMDB.