Clube da Luta

| Wanderley Caloni

February 15, 2019

Você já percebeu que em Clube da Luta o personagem de Edward Norton não tem nome? Nos créditos ele é conhecido como “O Narrador”. Isso tem tanto a dizer sobre este pequeno clássico da contra-cultura mundial e americana que eu nem preciso me dar ao luxo de revelar qualquer spoiler sobre este filme. Apenas assista e entenda a mensagem que você quiser do velho blá-blá-blá sobre consumismo e dívidas. Ele é tão atual que há uma série inteira (Mr. Robot) sobre o plano do filme e foi filmado uma década antes da grande crise financeira mundial que vivemos. Ele é profético, auto-destrutivo e não há alguém que o assista sem se surpreender pelo menos em um ou dois momentos do filme. E cada um escolhe o seu primeiro e segundo momentos para explodir seu próprio cérebro.

Dirigido pelo metódico e quase perfeccionista David Fincher (Garota Exemplar), que veio do mundo do videoclipe, este filme é daqueles em que um detalhe vai puxando o outro e quando vemos já se passou duas horas de pura adrenalina. Isso se deve tanto à sua história enxuta que usa de detalhes para mover o espectador a entender o que está acontecendo como seu próprio formato dinâmico e plástico, onde cada cena se torna automaticamente icônica. Há uma excelente trilha sonora, mas atores melhores ainda.

Edward Norton possui o controle absoluto de sua própria insignificância. O compare com seu personagem em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) e vai entender pelo contraste o que quero dizer. Ele é a insônia em pessoa, perambulando por esse mundo como um zumbi programado para ser sarcástico e descartável. Se o herói desse filme morresse nos primeiros quinze minutos ninguém daria por sua falta até chegar os créditos finais. Ei, é preciso um talento especial para se anular tanto mesmo sendo o centro das atenções.

Já Brad Pitt é o momento que estávamos todos esperando, logo após aqueles quinze minutos onde estamos tentando entender para onde vai todo aquele discurso derrotista e patético sobre ir em grupos de ajuda para se sentir bem pela desgraça dos outros. Ainda estamos tentando entender para onde vai caminhar esta história e o personagem de Pitt, o icônico Tyler Durden, parece já ter toda a resposta em seus atos. Ele não explica nada e realiza tudo. Ei, basta seguir esse cara que vou conseguir o que quero mesmo sem ter ideia do quê. Deve ser isso o que O Narrador pensou.

E em meio a uma crescente de loucura tomando forma de gangue do crime de dar inveja a filmes ridículos como Esquadrão Suicida, Clube da Luta ganha vida própria. Se trata de um trabalho que como Tropa de Elite possui seu próprio charme em suas frases icônicas (“É apenas depois de perder tudo que somos livres para fazer qualquer coisa.”) que tentam nos fazer livrar desse consumismo irracional que nos torna escravos de nosso destino. Como um filme com ideologia tão clara assim consegue ser atraente como conteúdo para pessoas inertes como espectadores em uma sala de cinema? A balança entre o real e ilusório é algo que Fincher também brinca quando O Narrador quebra a quarta parede aqui e ali.

Com uma edição ágil e uma história que se conta sozinha, em que homens à margem da sociedade só conseguem se sentir vivos se estão em uma roda de luta, onde tudo aquilo de fato tem significado, Clube da Luta está além de sua mensagem. Este é Cinema trabalhando um conceito até o fim: a auto-destruição. É destruição porque nesse momento, nós nos tornamos as coisas que possuímos. Portanto acorde. Se for sua primeira noite nesse filme, você deve lutar. São as regras.

Imagens e créditos no IMDB.

Fight Club é um filme dos EUA de 1999 que se tornou um clássico moderno sobre anti-sistema. É escrito por Jim Uhls baseado no romance de Chuck Palahniuk e tem direção de David Fincher. Em seu elenco brilham Edward Norton como 'o narrador' e Brad Pitt como o icônico Tyler Durden. Helena Bonham Carter também participa, e já parecia suja naquela época, apesar de brilhante como uma mulher que já desistiu de viver há um bom tempo..