Clube de Compras Dallas

Nov 30, 2015

Imagens

Nós, libertários, somos frequentemente acusados de não termos coração quando dizemos que as pessoas deveriam ser livres para buscar sua própria felicidade, mesmo que isso implique que os mais desafortunados tenham que se virar muito mais. No entanto, quando esse pensamento chega no sistema de patentes estadunidense, mais especificamente as drogas que tentam amenizar a dor e prolongar a vida de pessoas com HIV/AIDS, torna-se claro que a manipulação estatal nunca teve por princípio a busca da felicidade.

Assistindo Clube de Compras Dallas e acompanhando as desventuras de seu personagem da vida real, Ronald Woodroof (Matthew McConaughey), se torna cada vez mais claro que a felicidade nunca poderia estar nas mãos de qualquer instituição, por mais bem-intencionada e com mais poder que esta tivesse. Vendo um hustler texano apostar suas últimas fichas – 30 dias de vida, de acordo com o médido que o diagnosticou com a doença – para buscar o remédio – qualquer remédio – que conseguisse aumentar suas chances de sobrevivência, fica óbvio que a busca por sua própria sobrevivência sempre esteve nas mãos dos indivíduos. São as pessoas, cheias de imperfeições e preconceitos, que são donas de seu próprio destino, se assim a quiserem. Já vimos isso no ótimo À Procura da Felicidade (repare o título), com Will Smith, também baseado em um personagem da vida real. Porém, aqui temos um caso de vida ou morte mais intenso, e que exige que a pessoa envolvida utilize todas suas habilidades e – o mais importante – sua vontade de viver para que consiga o que quer; independente de quem ele votou na eleição passada (meu chute: nunca votou).

Obviamente que Ron transforma sua busca em uma forma de ganhar dinheiro, e isso também está na lista de possibilidades que uma pessoa pode fazer. Aliás, uma das maiores virtudes do filme é fazer-nos acompanhar essa trajetória do protagonista em uma busca incessante por um meio de trazer drogas não-autorizadas pelo órgão regulador americano para as veias dos pacientes em tratamento e em grupos de apoio, e como consequência dinheiro para os bolsos de Ron e Rayon (Jared Leto, ótimo), uma mulher em corpo de homem com quem ele estabelece uma parceria comercial que determina o nível de comprometimento com seu novo negócio de sobreviver e manter vivo seus clientes. Ron é homofóbico, mas não deixa isso atrapalhar sua empresa, até porque a grande maioria das pessoas que ajuda é gay. Eis um exemplo em que as pessoas deixam de lado seus preconceitos para que ambos os lados saiam lucrando.

A câmera do diretor Jean-Marc Vallée (Livre) se mantém na mão, balançando todo o tempo, fruto de um filme documental, biográfico e urgente. O roteiro conjunto de Craig Borten e Melisa Wallack não se importa em incomodar os espectadores mais espertos martelando obviedades. Eles preferem deixar a doutora Eve (Jennifer Garner) martelar a parede de sua casa e fazer vários buracos para pendurar tortamente um quadro com flores pintadas por uma cigana mãe de um de seus pacientes, e com isso sutilmente demonstrar o turbilhão de sentimentos e ideias que afloram quando falamos de pessoas não-conformistas e sem fronteiras que desafiam as leis da gravidade estatal, que jogam um peso incomensurável na liberdade humana. Note como é difícil se desvencilhar de agentes engravatados mesmo tentando vender vitaminas e minerais, já que isso implica em menos lucros para os fármacos que passaram pela longa fila de processos para ganhar um carimbo da casa branca. Mas note ao mesmo tempo o grau de comprometimento de Ron em seus disfarces e sua ênfase em se tornar crível em suas muitas passadas pela alfândega, fazendo crer a si mesmo que sempre foi um padre com câncer.

Clube de Compras Dallas é sobre olhar um médico vestir um nariz de palhaço para amenizar a dor que indiretamente pode estar causando a seus pacientes por estar “seguindo ordens” (ou seja lá qual for a recompensa por esse ato vil) e em seguida olhar para a figura de um palhaço entristecido de enfeite jogado no canto de uma sala, questionando qual o sentido em forçar as pessoas a seguir em fila para seu leito de morte, drenando no caminho todas as esperanças que elas teriam de tentar algo novo. As melhores cenas do filme possuem sutis rimas a respeito da humanidade que falta ou sobra em seus personagens. E não se engane quando falo “humanidade”. Minha noção de ser humano é ter lucro, todo santo dia, realizando um trabalho que as pessoas querem, ou trocando com elas. Ou simplesmente jantar junto e trocar experiências. Tudo onde dois ou mais ganham é ter lucro nessa vida. É por isso que, mesmo soando estranho em nossas cabeças condicionadas, é mais do que justo que o herói do filme receba aplausos infinitos. Não por sua bravura, nem pela sua busca de seu próprio lucro ou felicidade. Apenas por ser humano, e questionar o sistema em que vive, quando seu maior bem é colocado em xeque por sistemas inescrupulosos de racionalização: sua própria vida.

Wanderley Caloni, 2015-11-30. Clube de Compras Dallas. Dallas Buyers Club (USA, 2013). Dirigido por Jean-Marc Vallée. Escrito por Craig Borten, Melisa Wallack. Com Matthew McConaughey, Jennifer Garner, Jared Leto, Denis O'Hare, Steve Zahn, Michael O'Neill, Dallas Roberts, Griffin Dunne, Kevin Rankin. IMDB.