Colegas

Vocês percebem o potencial dramático e narrativo de um filme que usa atores com Síndrome de Down para interpretar personagens com Síndrome de Down? Percebem? Porque talvez os idealizadores de Colegas não tenham tido essa mesma visão. Aliás, o lado comercial da empreitada pode ser a principal responsável por um amontoado de caos envolvido em uma história menos que clichê: simplesmente sem sentido.

Porém, seria interessante se a parte sem sentido estivesse do lado de Stalone (Ariel Goldenberg), Aninha (Rita Pokk) e Márcio (Breno Viola), os heróis da história, que fogem da clínica onde vivem para realizar seus sonhos. Afinal de contas, é deles o direito do caos, das emoções descontroladas, da vivência como não costumamos ver no Cinema.

No entanto, o caos está mais pro lado de Arlindo (Lima Duarte), o narrador onisciente chatíssimo que narra tudo que estamos vendo na tela. Além dele, uma dupla de policiais vindo direto do Zorra Total, que costuma apontar a arma para testemunhas. Acima deles, um suposto “inspetor jovem demais para o cargo” que faz inveja aos papéis completamente sem graça de Marcos Veras. Em torno deles, repórteres de telejornais tão caseiros que nem o jornal do bairro teria coragem de produzir. Para finalizar, figurantes de todos os tipos, cores, gêneros, convivendo por alguns minutos com essas pequenas criaturas e assumindo que são extremamente perigosas porque sim.

Se há algo de idílico em Colegas, isso ficou na sala de edição. O que temos é o uso de momentos, frases e situações em filmes clássicos do cinema sendo enfiados de qualquer jeito em um filme sem pé nem cabeça. Temos também um ônibus cujo itinerário passa por uma praia deserta (no meio da areia) e temos atores que acenam para a câmera, em um claro exemplo não do amadorismo desses atores, mas do uso errado da emoção pelos idealizadores do longa, que nos lançam para fora do filme sempre que uma piada sem sentido/referência/acenos para a câmera é inserido no filme.

E tudo isso torna Colegas excessivamente longo, completamente esquecível e absurdamente desnecessário. Torna também a ideia de usar atores com Síndrome de Down não tão atraente para outros trabalhos. O que ele provou é que é possível. Porém, o preço a ser pago, a ver pelo filme, é proibitivo para a arte.

★☆☆☆☆ Wanderley Caloni, 2016-07-28. Colegas. Colegas (Brazil, 2012). Dirigido por Marcelo Galvão. Escrito por Marcelo Galvão. Com Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Breno Viola, Lima Duarte, Marco Luque, Daniel Torres, Monaliza Marchi, Amélia Bittencourt, Giulia Merigo de Souza. imdb