Com Amor Van Gogh

O que foi feito neste Loving Vincent é um trabalho curioso, quase fascinante e que merece uma visita pelo menos. Eles pegam a história em torno da morte do pintor moderno Vincent Van Gogh e montam um thriller no estilo Agatha Christie, meio teatral e meio noir, mas com toques artísticos e dramáticos porque se trata da história de um artista renomado. A grande propaganda deste filme é que todos os seus quadros foram “pintados à mão”, no mesmo estilo do pintor, o que torna o filme um trabalho adaptado da obra do artista. É um trabalho de fundo verde e de 100 pintores. Algo único, com certeza. Mas uma obra de arte?

Os esforços técnicos são de fato fascinantes. É preciso prestar atenção à história para não se perder nas diferentes formas de compor uma cena neste filme. Os traços de pintura a óleo aparecem vivas, e as transições para flashbacks, as mais comuns, o fazem de um tom de cores para monocromático, mas com uma fumaça que lembra os traços do movimento das luzes nas obras do pintor. Os personagens da história são personagens em alguns dos seus 800 trabalhos. Há momentos que existe movimento em 3D, do cenário, mas em sua maioria são fundos de tela em 2D, o que não deixa de ser impressionante. Os atores se vestem como os quadros seus rostos são estilizados depois. Efeitos como chuva, transparência e movimentação pela rua são feitos de forma com que os traços componham a energia que passa pelo mundo. É um filme enxergado pelo filtro de realidade do pintor moderno.

Tudo isso é fascinante, e a história do filme não é boba, mas contém alguns efeitos dramáticos e misteriosos, o que deixa tudo devidamente suspenso para que o espectador se interesse pelo desenrolar da narrativa ao mesmo tempo que quer ver mais sobre a produção do filme. Isso se torna um misto entre curiosidade técnica e criação de novas sensações de se ver um filme. Isso lembra Sin City, mas de uma maneira mais intensa.

A questão é que os diretores estreantes Dorota Kobiela e Hugh Welchman conseguem montar tudo devidamente e com muita competência, mas a narrativa parece ter um limite. A história é engessada, e não é surpreendente. Ela se adequa ao que os idealizadores gostariam que fosse feito no nível técnico. O filme se aproxima do experimental embora tenha os traços de uma produção comercial (incluindo a língua inglesa). As “dublagens” dos atores é de primeira linha. Aliás, é possível se falar em dublagem aqui, sendo que eles são atores de carne e osso sendo estilizados para o mundo Van Goghiano?

Douglas Boot é Armand Roulin, filho do carteiro que entregava as inúmeras cartas trocadas entre Van Gogh e seu irmão. Ele pretende revisitar a cidade onde ambos estavam e ambos pereceram para entender o que aconteceu. Lá ele conhece pessoas das mais pitorescas, e cada uma lhe dá uma visão diferente do que houve no melhor estilo Cidadão Kane. A música de Clint Mansell é bonita, mas dá sono por insistir no mesmo toque (já que a história não anda). Melhor se sai Daniela Faggio e a criação de arte de todos os diferentes ambientes onde se passa a história. Isso unico com a fotografia de Tristan Oliver e Lukasz Zal, que usam praticamente as mesmas paletas do “autor original”, se tornam um destaque plástico e artístico do projeto.

É preciso pensar muito para entender o que é Com Amor Van Gogh. É um experimento ou um filme? Ou os dois? O que isso muda na arte? Talvez seja apenas fruto de marketing, mas a ideia original é muito poderosa e tem muito a oferecer… apenas para este filme. É um momento único do Cinema. E por isso ele tem a chance de se tornar especial mesmo sem ter algo de fato muito duradouro. Um filme experimental que é bom ao ponto de não parecer experimental. A sensação de uma arte sendo transposta em outra. Existirá ainda os conceitos das sete artes?

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2017-12-09 imdb