Como Eu Era Antes de Você

Bonitinho, britânico, meh. Emilia Clarke com certeza já esteve melhor. Uma das protagonistas da série Game of Thrones e a Sarah Connor do último Exterminador do Futuro, o uso sintomático de suas sobrancelhas fornece simpatia nessa comédia romântica que lida com um interesse amoroso tetraplégico.

E contém muitas poucas piadas perto do muitíssimo melhor Intocáveis.

E é claro que a piada é a forma de lidar com essa situação em filmes como esse. Pessoas se sentem melhor do que angustiando em posição fetal e depressiva sobre as desgraças da vida. No entanto, o romance/roteiro de Jojo Moyes faz exatamente o contrário, insistindo na grande tristeza que é ver um moço jovem, bonito e atlético preso a uma cadeira de rodas para o resto de sua curta vida.

Há tempos que Hollywood e a literatura tem se concentrado nesse universo inclusivo, como podemos ver como ícone principal o excelente A Culpa é das Estrelas. Os perdedores estão ganhando terreno de maneira geral, e isso é ótimo quando conseguimos enxergar suas virtudes, até então escondidas. Aqui, porém, esse garoto jovem que sofreu um acidente terrível (Sam Claflin, mais interessante como Finnick de Jogos Vorazes) não tem nada a oferecer para a bonitinha e engraçada ex-garçonete Lou Crark (Emilia Clarke), exceto o dinheiro de seus pais.

E em um filme onde, obviamente, tenta-se fazer crer que o dinheiro não é lá tão importante, no fundo ele é de maneira gritante a única forma de tentar recuperar o conforto de viver do rapaz, e mesmo assim insuficiente. Por culpa de ninguém, é claro, mas ao mesmo tempo se elogia a força de vontade da heroína.

Ao mesmo tempo, é o dinheiro que dá a liberdade para que Clark possa se sentir à vontade para tomar escolhas difíceis, como decidir sair ou não de seu emprego, e algo que é a premissa inicial logo se torna descartável. De qualquer forma, a direção de Thea Sharrock parece mais interessado em formar um videoclipe fofinho a cada 20 minutos do que contar de fato uma história que alcance alguma coisa.

E isso explica o terceiro ato mais fraco que todo o resto. Se até então o filme havia fingido muito bem ser melhor do que de fato é, no final tudo se esvai em torno de uma escolha de músicas populares extremamente brega que pretende tomar conta de uma sequência tão dramática quanto a escolha de um indivíduo se matar ou não.

Sim, Como Eu Era Antes de Você irá te fazer chorar (provavelmente), e irá conter uma cena ou duas fofinhas o suficiente para te fazer feliz por dois minutos. No entanto, não é um casal para levar para casa, nem para se lembrar por muito tempo após as luzes se acenderem na sala de projeção. Não há nada muito profundo lá, e é curioso que o filme nem se esforce muito por nos tentar enganar que de fato haja.

O gosto e a necessidade do público de hoje, eu diria, é muito aquém de algo mais que uma série televisiva. Me dê uma menina bonitinha que se veste com todas as cores do mundo, apresente ao príncipe congelado de um castelo, tempere com músicas do momento e temos mais um dromance regado a pipoca e saídas fáceis. Divertido, sim, emocionante, quase, tocante… nem perto.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-06-26. Como Eu Era Antes de Você. Me Before You (UK, 2016). Dirigido por Thea Sharrock. Escrito por Jojo Moyes, Jojo Moyes. Com Sam Claflin, Emilia Clarke, Vanessa Kirby, Eileen Dunwoodie, Pablo Raybould, Gabrielle Downey, Henri Charles, Samantha Spiro, Brendan Coyle. imdb