Como Ser Solteira

É cada vez melhor a surpresa com relação a comédias românticas (ou apenas comédias) protagonizadas por mulheres. O universo feminino independente do masculino estava escondido por gerações, mas hoje, no formato de uma sociedade que cada vez mais reconhece o direito da mulher de se divertir tanto quanto os homens, está a cada dia causando no Cinema resultados positivos, da mesma forma com que o universo masculino muitas vezes é representado (vide o último filme de Richard Linklater, “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes”) sem ressalvas pelo machismo e a quem isso possa doer. Ele existe. Assim como mulheres que transam por 100% de prazer e 0% de comprometimento.

E para temperar estes filmes, a figura de Rebel Wilson é sempre bem-vinda. Ela é uma coadjuvante de luxo que consegue através de seu carisma e (quase sempre) ótimas tiradas tornar “Como Ser Solteira” um filme engraçado e dinâmico, evitando cair no clichê do drama feminino em busca de significado em sua vida.

E por falar em sair de clichês, este filme roteirizado por quatro pessoas, apesar de confuso e não conseguir dar tempo suficiente para todas suas histórias e personagens, convence por sua tentativa de mostrar como o mantra do “dever ser” da sociedade pode ser prejudicial para qualquer pessoa. A necessidade da protagonista interpretada por Dakota Johnson (“Cinquenta Tons de Cinza”) de viver uma vida de solteira antes de tomar a “grande decisão” de se casar com seu primeiro namorado é louvável, mas ignora que indivíduos são diferentes, além de que eles podem mudar.

Da mesma forma a personagem irritantemente carismática (e neurótica) de Leslie Mann (“O Virgem de 40 Anos”) subverte o clichê da mãe solteira que se dedicou por mais tempo que devia à sua vida profissional. E o que dizer da sempre divertida Alice Brie (“Community”), que faz o papel da mulher que nunca se encaixa em um relacionamento e cuja profissão de narradora de histórias para crianças inverte de maneira hilária seu futuro como a tia solitária e falsamente delicada?

Através da direção segura de Christian Ditter somos levados a diferentes enquetes que se juntam e se entrelaçam em uma espécie de “Simplesmente Amor” para solteiros e enrolados. Não se sabe ao bem a moral da história, mas se sabe que o vigor com que Ditter avança sobre a história, competentemente editada por Tia Nolan, consegue fazer com que as divertidas atuações do elenco se tornem ainda mais inesquecíveis.

E isso se tratando de personagens que beiram o estereótipo. No entanto, há em seu background história o suficiente para torná-las reais, e além disso, uma direção de arte digna de comédias de personagens em Nova Iorque. Há cores exageradas de um lado, “apês” minimalistas de outro, e ricos inesperados de outro. Não há muita credibilidade, mas quem se importa com isso quando está se divertindo?

Esqueça a previsibilidade do velho enlatado ComRom. Em Como Ser Solteira há criatividade demais na criação e desenvolvimento de seus personagens para ficar se martirizando com a velha história do casal que se odeia mas se ama. Prefira a volúvel Rebel Wilson e suas tiradas de duas palavras (“lunch time!”).

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-11-17 imdb