Computer Chess

Já virou um clichê cinematográfico: se vai fazer filme de xadrez, sua história tem que ser complexa. No caso de Computer Chess, essa complexidade nos personagens e em suas relações é complementada pelo fato de um filme de 2013 emular os anos 80 através de filmagens em preto e branco com razão de aspecto quadrada e erros de edição um possível encontro de programadores entusiastas em um torneio disputado entre suas máquinas de fazer cálculo. A ideia é parecer um documentário, mas sua estrutura possui o tom ficcional, com cortes definidos e diálogos obviamente vindos de um roteiro. Vemos a câmera e o cameraman diversas vezes, o que obviamente já nos revela aquele ser um filme amador sobre um documentário sendo feito em um campeonato de programas de xadrez, o que com certeza dá o tom da complexidade que comentei.

Os personagens existem, não há dúvida. São eles que nos entretem, e não o jogo em si. Alguns deles possuem arcos unidimensionais, tal qual peças em um tabuleiro (daí o clichê). Quem conclui isso é um dos programadores. Inserido nessa atmosfera também está um grupo de casais em terapia feita em uma sala compartilhada pelos nerds em momentos distintos.

O que torna Computer Chess um bom filme é sua capacidade de nos prender pelos pequenos traços marcantes dessas pessoas exóticas (nerds ou não) e a observação quase clínica de como essas pessoas interagem em um espaço fechado, alguns sob pressão perdendo continuamente, outros sem ter onde dormir e sem dinheiro. O que o torna medíocre é o fato do diretor/roteirista Andrew Bujalski se achar um gênio e esquecer de amarrar esses traços em algo mais palpável, permitindo que a liberdade da narrativa atrapalhe sua maior virtude. Diferente de filmes como Amor (Haneke, 2012), que mostram o real para impactar, Computer Chess mostra o real para se fazer de esperto. Essa esperteza, no entanto, não sobrevive a uma análise mais enxadrística.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2014-06-06 imdb