Concorrência Desleal

Wanderley Caloni, December 20, 2010

Mais um filme político de Scola. Dessa vez o foco da história é a concorrência entre um alfaiate e um lojista, que dividem a fachada de suas lojas e suas casas, a amizade de seus filhos menores e um romance entre seu filho e sua filha maiores. Possuem muitas coisas em comum, menos uma: uma família é de judeus; a outra, não.

É com esse pano de fundo bem arquitetado que o filme vai mostrar, gradativamente, o que o regime fascista na Itália fez com as pessoas, com os pensamentos, com uma simples rua de uma simples vila se transformar de forma radical por um “bem” que ninguém conhecia, mas muitos criticavam.

O início do diretor se dá com um econômico travelling que parte da loja de tecidos e vai até o quarto da fachada de sua casa, uma maneira que torna nossa invasão à privacidade dessa família mais natural.

É impressionante também notar que cada trilha sonora é encaixada perfeitamente em uma cena, nunca soando demais, nunca perdendo a beleza da cena e dos magníficos enquadramentos de Scola, que consegue sempre criar quadros de suas tomadas, seguidos por toques simples que remetem à nostalgia e tristeza que são sentidas daquela época.

Note como quando o rapaz lê o bilhete de sua amada na banheira a música que ela toca no concerto vem à mente dele e do espectador, um detalhe que faz parte do emaranhado planejado pelo diretor para nos fazer sentir realmente a história em todos os nuances.

A criança desenha caricaturas dos personagens conforme a história passa, e de fato universaliza a situação que aquele pedaço da Itália está passando para todo o mundo, com seus personagens e tudo mais. A forma como é contado esse desenho (sempre que somos apresentados a um personagem, já existe o corte seco para a criança desenhando).

Enquadramento de toda família na festa de 80 anos da vó.

Sequência da moça descendo a escadaria para beijar o amado na parte de fora, sem cortes, para demonstrar um breve momento.

Detalhes aos poucos são mencionados ou simplesmente mostrados, como a placa que proíbe falar de política, ou a confiscação do rádio dos judeus, e até o repúdio aos estrangeirismos. Aliás, existe uma belíssima cena sobre uma moça que vai à loja comprar um tecido e é mal atentida pela funcionária, para depois ser bem recebida pelo dono. Emana um não-sei-o-quê de Schindler no dono da loja nesse momento e tantos outros antes do final do filme.

Note o belo enquadramento do interior da loja, no escuro, enquanto os dois irmãos visualizam a rua.

Quando os dois meninos são separados pela proibição de estudar judeus em escolas percebemos que a ponta que estavam construindo ficou inacabada, em uma clara referência à quebra da aliança entre os povos que se acomete nesse regime.

Mais que mostrar o lado repudiado, é interessante ver o lado “vencedor”, como em frases “felizmente, somos católicos”.

Scola sempre usa o melhor quadro para mostrar a ação. Em visita ao seu concorrente, a cena mostra ele frente à cama do ângulo da fachada. Para uma cena final em que ele se aproxima da janela, ele inverte o ângulo, para economizar a caminhada da visita até a janela.

Por fim, quando o quadro final está completo, com a despedida da família judia, o último quadro é de um menino no meio da rua, vestido com camisas listradas, olhando para o vazio: uma vez que você toma óleo de bacalhau junto com uma pessoa, ela se torna seu amigo para sempre.

Imagens e créditos no IMDB.
Concorrência Desleal ● Concorrência Desleal. Concorrenza sleale (Italy, 2001). Dirigido por Ettore Scola. Escrito por Furio Scarpelli, Ettore Scola, Furio Scarpelli, Silvia Scola, Giacomo Scarpelli. Com Diego Abatantuono, Sergio Castellitto, Gérard Depardieu, Antonella Attili, Claudio Bigagli, Sandra Collodel, Augusto Fornari, Elio Germano, Sabrina Impacciatore. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-12-20. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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