Conexão Escobar

Aug 20, 2016

Imagens

Bryan Cranston volta a brilhar (dessa vez de verdade, não como Trumbo) em um filme que, assim como Breaking Bad, fala sobre tráfico de drogas, e assim como Breaking Bad, fala da hipocrisia do Estado, como usar o dinheiro da proibição para fazer guerra pelo mundo. E, novamente como Breaking Bad, como pessoas fazendo o que amam fazer (ou estão obcecadas) podem ir longe, bem longe do que todos imaginam.

Esse é um trabalho pé-no-chão sobre máfia, gangues, tráfico e lavagem de dinheiro. Mostra como seus líderes são sociopatas niilistas que, por serem milionários, são muito mais perigosos. Mostra como a mente fria e obcecada do agente secreto Robert Mazur (aliás, um verdadeiro ex-agente) conseguiu manter-se infiltrado e atingir o alto-escalão dos traficantes através de uma dedicação que desafia a noção de emprego.

E se Cranston faz isso de uma maneira convincente e enérgica em alguns momentos, seu parceiro, Frankie, interpretado por Daniel Mays, consegue ser ainda melhor, pois além de válvula de escape para o humor, seu personagem é igualmente inteligente, embora disposto a arriscar demais para conseguir informações.

Porém, é ele que atinge o primeiro contato que leva Mazur a virar Bob Musella, um cara rico de boa vida e de bons contatos, que faz a vida lavando dinheiro do tráfico através de uma rede de empresas confiáveis, além de um contato extremo com os banqueiros. Musella é criado parcialmente no começo, mas de improviso detalhes são adicionados – como sua noiva – e como todo emprego de risco, o aprendizado está no caminho. É como aquele ditado: é impossível até alguém tentar. Embora o filme possa ser acusado de tornar aparentemente fácil o caminho dos agentes, ele é esperto o suficiente para mostrar ao espectador que o perigo de ser descoberto e suas consequências são o motivador para um serviço não menos que perfeito de Mazur e Frankie. Dessa forma, ambos possuem dois ótimos momentos que ilustram isso de maneira inequívoca. Se um é obrigado em um restaurante a se tornar um ser inescrupuloso que não segue nenhuma regra social, o outro acaba vendo a morte que causou de perto, e aprende a sorrir para seus comparsas enquanto, aos poucos, o sorriso se transforma em um misto de dor e preocupação.

Cranston, por outro lado, em determinadas cenas mostra a que veio, e nem precisa de uma transição no seu rosto. Há momentos que sua expressão consegue demonstrar confiança irrestrita ao mesmo tempo que deixa escapar para o público um pequeno franzir estático, que demonstra sua eterna preocupação de ser pego. A sua forma de racionalizar seu plano, de dizê-los para seus colegas, contrasta de uma maneira fascinante quando, ao lidar com as gangues que começa a conviver, ele se torna um ser mais brutal.

O diretor Brad Furman faz um ótimo trabalho em capturar as diferenças da escalada dos agentes, quando iniciam a jornada em espaços fechados e escuros, e aos poucos se lançam aos grandes chefões em grandes mansões e casas na colina (incluindo a própria, de Musella). Além disso, a edição é dinâmica, e consegue criar dois ou três dos “raccords” (transições entre cenas) mais maravilhosos do ano, quando Mazur vai se lavar do sangue que tem em seu corpo, e enquanto toma banho, vem a imagem de uma bela mulher atravessando uma piscina em uma câmera baixa visualmente e tematicamente arrebatador, já que demonstra como no alto escalão há muita água para lavar o sangue que escorre nas ruas (sem contar os vultosos milhões que são feitos no processo).

Conexão Escobar é uma pequena pérola do gênero de ação, pois consegue demonstrar a violência em seus personagens e em ações pontuais, mas mantém a tensão estritamente nos diálogos, provando que um filme verdadeiramente tenso consegue fazê-lo com a força das situações, sem nem precisar abrir muito do que está acontecendo.

Wanderley Caloni, 2016-08-20. Conexão Escobar. The Infiltrator (UK, 2016). Dirigido por Brad Furman. Escrito por Ellen Sue Brown, Robert Mazur. Com Bryan Cranston, Leanne Best, Daniel Mays, Tom Vaughan-Lawlor, Niall Hayes, Lara Decaro, Juliet Aubrey, Olympia Dukakis, Amy Ryan. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.