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Adoro o livro que Carl Sagan escreveu imaginando como seria, em um mundo realista e atual, nossa primeira comunicação com uma civilização extraterrestre. Ele não apenas fez isso como abriu um pouco mais nosso leque filosófico ao ensaiar uma explicação que unisse ciência e religião, matemática e sentimentos.

Exatamente por isso que a adaptação de Robert Zemeckis se sai tão bem. Ela não ignora a humanidade e seus conflitos de poder, seus anseios e medos do desconhecido. Ela amplia nossa percepção do que possivelmente aconteceria em nosso mundo, com nossas crenças, se um belo dia recebêssemos do espaço uma mensagem nos dizendo: vocês não estão sozinhos.

Mais ainda, o roteiro escrito com a ajuda de Sagan internaliza todos esses conflitos intelectuais e emocionais na personagem fascinante de Jodie Foster, que desde o início de sua vida teve que lidar com sua solidão. Os ecos de seu passado refletidos no presente, sobretudo seus medos (como o de cancelarem o programa de pesquisa por vida inteligente), revelam tanto sobre nós mesmos que é natural, quase primordial, que ela fosse para nós, espectadores, a representante escolhida da raça humana.

Não é um filme difícil, pois consegue ser tão reflexivo quanto empolgante. Ele revela a excitação da descoberta científica, influenciando mentes não-científicas a questionarem a realidade. Possui ao mesmo tempo a riqueza cinematográfica de rimas visuais (Ellie encostando a cabeça no joelho quando desamparada), de movimentos de câmera (a cena lenta e tensa até o armário de medicamentos, onde Zemeckis, para não realizar o corte, transforma a câmera em um espelho), e do uso fascinante do expressionismo (a cabeça de Ellie acompanha a fileira de antenas, como uma extensão do nosso sistema auditivo).

★★★★★ Wanderley Caloni, 2013-12-29 imdb