Coração de Leão

2017/07/31

Este filme beira o amador em sua fotografia e roteiro. As atuações, coitadas, não podem fazer nada com esses personagens que se olham o tempo todo e nada dizem de importante. Como seria retratar o começo de um relacionamento qualquer, que poderia ser de qualquer um de nós e que não teria qualquer detalhe diferente? Este filme é assim, com apenas uma exceção: um dos lados é mais baixo que o normal.

Mas isso é rapidamente compensado. O lado baixo é rico, charmoso, insistente. E mais uma vez caímos em uma situação que poderia acontecer com qualquer um de nós. Talvez tudo isso seja para demonstrar como podemos ser hipócritas a respeito de dinheiro.

Algumas situações circundam o romance do casal que servem como pano de fundo para piadas das mais clichês. Assim temos o anão que se senta em uma poltrona que lhe cobre (e as pessoas não notam sua presença), um tropeço na rua porque as pessoas não vêem alguém tão baixo vindo, um encontro acidental entre o anão e seu rival em um semáforo, onde eles travam o trânsito para que sejam proferidas mais algumas piadas de anão pelos motoristas.

Ainda há uma pequena aula de como o próprio filme pode ser hipócrita, se negando a considerar que pessoas adultas não conseguem ser respeitosas com anões, mas o conseguem com surdos, enxeridas, desonestos. Em todo lugar que o anão aparece ele é motivo de chacota e risadas, o que poderia ser um drama. Mas o filme a todo momento nos convida a rir com ele. Qual o objetivo aqui?

Foram feitos não um, mas dois remakes deste filme; um na Colômbia e o outro em francês. Assisti o francês, com Jean Dujardin (O Artista) no papel principal, devidamente tendo suas pernas cortadas por trucagens de câmera (como é feito aqui). Ele é melhor produzido e possui uma direção ao menos competente. Em contraste, o original carece dos elementos visuais mais básicos para fazê-lo não chamar atenção para si mesmo. Dessa forma, enquanto o remake curiosamente utiliza um plano-sequência na cena inicial, que envolve duas pessoas falando ao telefone, o original insiste em virar a câmera, realizar cortes, dividir em dois (e inverter os personagens), ampliar novamente. Uma série de artifícios que tenta tornar dinâmico um momento que cabe apenas às atuações e a bons diálogos. Aqui não temos nem um nem outro.

A sensação de assistir a Coração de Leão é que este filme não sabe sobre o que quer falar. Ele é amoral. Ele encontrou um tema diferente para comédia romântica e o descartou por conta de seus próprios preconceitos e estereótipos. Não sei se esse foi de fato o objetivo dos produtores, mas algo me diz que ele atinge o exato oposto do que poderia atingir.

★★☆☆☆ Título original: Corazón de león. País de origem: Argentina. Ano 2013. Direção: Marcos Carnevale. Roteiro: Betiana Blum. Marcos Carnevale. Elenco: Guillermo Francella (León). Julieta Díaz (Ivana). Mauricio Dayub (Diego). Jorgelina Aruzzi (Corina). Nora Cárpena (Adriana). Nicolás Francella (Toto). María Nela Sinisterra (Glenda). Claudia Fontán (Toto's mother Sabrina). Carlos Donigian (Hombre de la calle con celular). Edição: Ariel Frajnd. Fotografia: Horacio Maira. Trilha Sonora: Emilio Kauderer. Duração: 94. Razão de aspecto: 1.85 : 1. Gênero: Comedy. Estreia no Brasil: 19 June 2014. Tags: netflix

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