Corações de Ferro

O que é o patriotismo, senão uma outra forma de religião? Da mesma forma com que a igreja católica destroçava povos e arrancava suas almas, a curiosa mente de soldados norte-americanos cansados e no final da segunda guerra nos revela em Corações de Ferro uma noção de que até atos de heroísmo estão manchados de sangue e uma moral no mínimo duvidosa. O estresse de ter matado (e muito) pode servir de desculpa, mas assim como em Sniper Americano, não por muito tempo.

Girando (literalmente) em torno de um tanque norte-americano que está em sua última missão de fazer render o resto do exército alemão, o sargento Don ‘Wardaddy’ Collier (Brad Pitt) comanda uma equipe de soldados que, realistas mas nem tanto, servem metaforicamente como a representação dos rumos de um EUA mais atual do que há meio século atrás. Talvez apenas alguns anos. Com a morte de um deles, é substituído por um novato de escritório (Logan Lerman), nossos olhos naquele mundo de assassinatos legalizados.

O passeio épico que o filme escrito e dirigido por David Ayer é floreado não apenas com sua câmera que exalta a grandiosidade do tanque em torno dos campos de batalha por onde passa, mas com uma trilha sonora igualmente grandiosa e temática, dividindo a experiência em fases de uma escalada “evolutiva” de um ser humano se transformando em um soldado, e que testa nossa percepção do que é humano quase a todo momento. Com uma fotografia e um ritmo invejáveis em todo o percurso, o sentimento geral é semelhante a Cidade de Deus e seus conflitos morais. Temos noção do que é necessário para vencer uma guerra, mas quase nunca sentimos nos filmes que as retratam como decisões são tomadas quase sempre com pouquíssimo tempo de reflexão e muito sangue quente correndo nas veias.

O personagem de Brad Pitt é o ser mais complexo da trama, cercado de atuações dignas de compartilharem esse espaço. Seus diálogos com o novato, o igualmente competente Logan Lerman, são admiráveis pela lógica e naturalidade com que são desenvolvidos, além da inserção progressiva de uma relação pai/filho que parece quase sempre fazer sentido. O tempo do filme é curto para tanto, mas há vários e tensos episódios, grudados um no outro, que são suficiente para essa visão acelerada de como as coisas funcionam.

Pecando talvez por simplificar a questão de homens lutando (e matando) juntos por muito tempo, submete o filme à prova em um momento crucial que se passa debaixo do tanque, e que parece ter sido o motivo de todo o filme. Se o “patriotismo” que muitos exaltam já não estivesse devidamente surrado no filme de Ayer, aqui ele recebe um golpe de misericórdia complexo e memorável.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-07-14 imdb