Corações de Ferro

Jul 14, 2015

Imagens

O que é o patriotismo, senão uma outra forma de religião? Da mesma forma com que a igreja católica destroçava povos e arrancava suas almas, a curiosa mente de soldados norte-americanos cansados e no final da segunda guerra nos revela em Corações de Ferro uma noção de que até atos de heroísmo estão manchados de sangue e uma moral no mínimo duvidosa. O estresse de ter matado (e muito) pode servir de desculpa, mas assim como em Sniper Americano, não por muito tempo.

Girando (literalmente) em torno de um tanque norte-americano que está em sua última missão de fazer render o resto do exército alemão, o sargento Don ‘Wardaddy’ Collier (Brad Pitt) comanda uma equipe de soldados que, realistas mas nem tanto, servem metaforicamente como a representação dos rumos de um EUA mais atual do que há meio século atrás. Talvez apenas alguns anos. Com a morte de um deles, é substituído por um novato de escritório (Logan Lerman), nossos olhos naquele mundo de assassinatos legalizados.

O passeio épico que o filme escrito e dirigido por David Ayer é floreado não apenas com sua câmera que exalta a grandiosidade do tanque em torno dos campos de batalha por onde passa, mas com uma trilha sonora igualmente grandiosa e temática, dividindo a experiência em fases de uma escalada “evolutiva” de um ser humano se transformando em um soldado, e que testa nossa percepção do que é humano quase a todo momento. Com uma fotografia e um ritmo invejáveis em todo o percurso, o sentimento geral é semelhante a Cidade de Deus e seus conflitos morais. Temos noção do que é necessário para vencer uma guerra, mas quase nunca sentimos nos filmes que as retratam como decisões são tomadas quase sempre com pouquíssimo tempo de reflexão e muito sangue quente correndo nas veias.

O personagem de Brad Pitt é o ser mais complexo da trama, cercado de atuações dignas de compartilharem esse espaço. Seus diálogos com o novato, o igualmente competente Logan Lerman, são admiráveis pela lógica e naturalidade com que são desenvolvidos, além da inserção progressiva de uma relação pai/filho que parece quase sempre fazer sentido. O tempo do filme é curto para tanto, mas há vários e tensos episódios, grudados um no outro, que são suficiente para essa visão acelerada de como as coisas funcionam.

Pecando talvez por simplificar a questão de homens lutando (e matando) juntos por muito tempo, submete o filme à prova em um momento crucial que se passa debaixo do tanque, e que parece ter sido o motivo de todo o filme. Se o “patriotismo” que muitos exaltam já não estivesse devidamente surrado no filme de Ayer, aqui ele recebe um golpe de misericórdia complexo e memorável.

Wanderley Caloni, 2015-07-14. Corações de Ferro. Fury (USA, 2014). Dirigido por David Ayer. Escrito por David Ayer. Com Brad Pitt, Shia LaBeouf, Logan Lerman, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Brad William Henke, Kevin Vance, Xavier Samuel. IMDB.