Corações Sujos

Quando fui apresentado no início do filme à história — a zona de tensão entre os imigrantes japoneses no Brasil ao final da WWII, pois muitos ainda acreditavam que a guerra havia sido ganha pelo lado nipônico — fiquei extremamente entusiasmado, principalmente por dois motivos: 1) se tratar de um primeiro movimento do Cinema Nacional de resgatar o passado histórico e exorcizar seus demônios e 2) pelo tratamento aparentemente dedicado da produção, que utiliza o japonês como idioma-base, desafiando uma realidade crescente de salas populares que priorizam a comodidade da dublagem em detrimento à mutilação da sétima arte.

No entanto, todas minhas esperanças foram sugadas paulatinamente conforme o filme prosseguia. Além da introdução pedestre e excessivamente didática do conflito inicial — quando um letreiro inicial explica exatamente a situação mostrada na primeira cena, com direito a diálogos que repetem o que o letreiro já sintetizava — um roteiro pedestre estraga boa parte da experiência, com diálogos, quando existentes, artificiais demais para sair das bocas de seus personagens, interpretados por um elenco excessivamente amador e que, salvo raras exceções, não consegue sequer diferenciar os dois grupos em conflito, quanto mais suas personalidades.

Fosse apenas isso, ainda teríamos pelo menos o prazer estético de uma obra audio-visual: muitos grandes filmes existem apesar de seu subtexto quase inexpressivo (Dolls, filmes do Kim Ki-duk). Porém, uma direção no ápice da sua auto-indulgência consegue destruir isso também, pois imagina estar transformando uma boa história em uma obra de arte, quando na verdade pega a ausência de trama para compor quadros expressivamente vazios aparentemente com a única finalidade de inserir a assinatura arrogante de um realizador que precisa aprender muito sobre a arte de contar histórias.

Primeiramente utilizando uma lente que tira do foco tudo em sua volta menos uma região específica, que é usada aleatoriamente durante a projeção sem qualquer motivo óbvio, vemos ações de personagens que servem de mecanismo de enquadramento para o diretor, como uma mulher rasgando papéis para mais tarde vermos um quadro preenchido com seus pedaços no chão, ao mesmo tempo que após uma sequência particularmente tensa (um momento raro) vemos galinhas mortas ajudando a preencher a tela pelo simples prazer de preencher um quadro dramático, vazio em seu sentido, mas que consegue ao menos atingir nesses dois momentos um ápice: o do aborrecimento.

Por fim, sua conclusão arrastada criada a partir de uma elipse de uma vida inteira parece necessária apenas para dar algum significado ao que vimos pelas últimas duas horas, e mesmo isso soa artificial demais para reerguer uma “comédia” de erros que nunca conseguiu alçar voo, tal qual as galinhas mortas no chão.

Epílogo

★☆☆☆☆ Wanderley Caloni, 2012-08-19 imdb