Corpo e Alma

Corpo e Alma possui um lindo pano de fundo: ele observa a humanidade em alces, bois e humanos. A primeira cena é em uma floresta intocada, com dois cervos. Observamos seus olhares e seus movimentos. Há um lago paradisíaco e um filete de água que se esvai como se fosse infinito. Em um dado momento, um alce coloca sua cabeça sobre as costas do outro. Há uma comunicação invisível ali. Mas humana. Esse é o sentido deste longa.

Corta para o abatedouro. Cenas fortes. Bem fortes. Bois são abatidos mecanicamente. Suas partes são separadas e penduradas. Há sangue. Muito sangue. Antes disso observávamos o mesmo olhar dos bovinos visto nos alces. E ao mesmo tempo em um humano. Ele observa da janela e sente o sol encostar em sua pele. O bovino também. No pátio, uma recém-chegada foge do sol. Ela tem problemas de comunicação e de viver.

O filme escrito e dirigido por Ildikó Enyedi ganhou o Festival de Berlim. O tema da comunicação impossível entre nós, humanos, é estendido agora para nossos parentes mais próximos: mamíferos. Aqui vemos ruminantes. Os alces possuem vida curta, cerca de 20 anos. Nós, humanos, cerca de 80. Mas qual o valor de uma vida não-vivida?

A rotina do abatedouro e seu refeitório acaba se tornando palco de uma comunicação inusitada entre o humano e a humana que observávamos agora há pouco. Eles são o diretor financeiro e a novata naquela fábrica. Ela é isolada pelo seu autismo. Ele pela seu braço paralisado. Ambos, muito lentamente, vão desenvolvendo uma relação amorosa inusitada, enquanto um roubo inusitado do “pó do amor” para os bovinos vai sendo desenvolvido em uma investigação psicológica.

As pontas de Corpo e Alma nunca são presas o suficiente para que seu tema fique claro. Ele é sutil demais para nos manter atentos ou nos entregar algo marcante. Porém, sua leveza frente a cenas fortes é arrebatadora. Quase poética. Uma versão espiritual de Boy Meets Girl sem ter muito o que desenvolver. Se trata apenas de olhar e experenciar.

O proprio gênero oscila atrapalhadamente entre o humor e o drama. A menina é autista e seus problemas de comunicação podem ser vistos como engraçados, apesar de dramáticos. Fica um ponto de interrogação toda hora. O público fica em dúvida. O filme fica em dúvida. O filme está com o vidro embaçado, apesar de lindo e apesar de sereno.

Sangue e olhares se misturam em uma poesia contada em prosa, tão sutil que esqueci sobre o que se trata.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2018-01-13 imdb