Corra!

“Os brancos estão por cima faz centenas de anos. Agora o negro está na moda.” Essa frase de “Corra!” basicamente resume o filme e a época em que vivemos. Uma época onde o mérito é ter um passado vitimista e ter uma a cor da pele certa. Uma época racista ao inverso, onde ser negro é “cool”, onde sua genética é exaltada e onde não há nada mais natural que um filme de terror sobre isso.

A história é tão simples que merece aplausos desde já. Boy meets girl e agora boy meets girl’s family. O detalhe que não deveria fazer diferença: ele é negro e ela é de uma família 100% caucasiana (isso é o que o esquerdista adoraria que fosse verdade). De acordo com ela seus pais não são racistas, e provavelmente seu pai irá dizer que se pudesse votaria no Obama mais uma vez. Dito e feito. Uma família esclarecida!

Será? Não exatamente. Então se trata de um fim de semana bizarro com a família, que se torna mais bizarro porque uma festa está programada. O roteiro caminha por lugares tão comuns e desvia de todos os clichês, saindo de uma história potencialmente previsível para algo além da conta de um espectador pego de surpresa. Mas se atente aos detalhes. À morte do cervo, às conversas sobre lutas, sobre o poder da mente sobre os músculos, sobre quem é esta família e quem são seus convidados. Incluindo um expositor da arte que o menino é profissional: fotografia. Hoje ele é cego. A vida pode ser injusta às vezes. Outras…

Aliás, por falar em fotografia, ela é glamurosa. Esteticamente impecável. Ela exalta o clima puritano, higienizado da tradicional família norte-americana, com cores pálidas, mas ao mesmo tempo possui tons ligeiramente gritantes, como as marcas de um bingo pra lá de creepy.

Acredite, os detalhes da história farão você pirar na revisita às suas memórias. Mas o que irá te conquistar por definitivo são as decisões de direção. O ator Jordan Peele, que já fez alguns trabalhos no roteiro, estreia aqui na direção (ele assina o roteiro também) de um trabalho que melhora imensamente nosso acervo de terror da década. Ele, sem trocadilho, descontrói alguns conceitos usando nossa paranoia atual sobre microagressões e abusos de autoridade. Seu filme possui o refinamento de um drama sem soar sério demais, pois usa o humor negro na figura do amigo do garoto e no próprio garoto.

Ele é Daniel Kaluuya, que faz Chris Washington, um fotógrafo de sucesso que arruma uma namorada branca como a neve e com um sorriso alemão (Allison Williams, ótim). Só isso já seria de arrepiar. Mas a participação de Kaluuya incrementa ainda mais a história. Ele é a voz da sanidade em um mar de esquisitices. Ele reage de acordo a cada nova situação, e percebemos ele anotando mentalmente como tudo vai se juntando em uma versão macabra de festa de família. Ele poderia ser um pouco mais visível no terceiro ato.

Mas, voltando à direção de Peele. Ele mostra o ansioso encontro entre o garoto e os pais da menina de longe, sem sequer vermos suas expressões. O que vemos no lugar é uma dupla de empregados das mais estranhas. Ele nos mostra do ponto de vista de fora e de dentro da casa, e em nenhum momento nos sentimos acolhidos. Pelo contrário. Note a relação daquela porta aberta com o estado de hipnose que irá ser demonstrado em algum momento do filme (uma analogia muito eficiente, aliás).

Parte da estranheza do filme se deve às ótimas atuações dos atores secundários, como o par de empregados (Marcus Henderson e Betty Gabriel; Betty está assustadora!), que conseguem harmonizar suas esquisitices sem entregar completamente o doce. Mas, cá entre nós, das duas maneiras que você encarar essa história esses dois são de arrepiar até os ossos.

Junto do par de empregados vem, para a festa de família, um acompanhante de uma velha caucasiana (Lakeith Stanfield). Ele pode ser a chave para isso tudo, mesmo que seja mais do mesmo para o agora extremamente confuso garoto. Note como o flash é usado para iluminar a questão e como a cena inicial do filme é inserida exatamente quando as dúvidas de Chris de que algo está tremendamente errado começam a amadurecer.

É claro que nem tudo é perfeito em “Corra!”. O exagero na caricatura dos personagens brancos nos afasta um pouco, embora ela tenha um propósito. E o propósito é o que estava falando no começo. “O negro está na moda.” Na moda e tem cotas no Oscar faz dois anos. Este é um dos indicados a melhor filme. Tomara que ganhe este ano sem vexame. Não pelos negros, mas pelo terror. Aliás, só os negros para colocarem até um terror entre os indicados. Pelo jeito eles estão na moda mesmo.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2018-01-25 imdb