Cosmópolis

2012/10/12

Se visto como um filme com começo, meio e fim, Cosmópolis pode se transformar em uma decepção. No entanto, se percebermos o padrão utilizado em seus caóticos diálogos, será possível destrinchar ao menos o tema da história: um dia na vida de Eric Packer (Robert Pattinson), um bilionário resultado da soma da especulação financeira com sua inteligência fora do comum ao transformar em dinheiro a commoditiy mais importante da nossa era: a informação. Sintetizando a frase anterior, como o próprio Eric o faria: um dia na era da informação.

Aliás, o uso ou desuso de padrões é uma constante na jornada do bilionário dentro de sua limusine em direção à única coisa que sabemos de concreto que ele deseja: um corte de cabelo. Para isso, participaremos de uma visão extremamente peculiar de Cronenberg a respeito do que ele pensa desses senhores donos das pessoas e suas vidas, visionários que se misturam com a população com a única exceção de não fazerem parte dela. É uma jornada de ego, onde o melhor exemplo que pude encontrar foi quando o próprio Eric conta uma passagem de sua infância: contando quatro anos de idade, calculava quanto pesaria em cada planeta do sistema solar. Como sua recente esposa conclui: o exemplo perfeito entre ciência e ego. Digo mais: temos nesse único exemplo referências à sua inteligência (tão jovem), o uso da informação comum (gravidade nos planetas) e a detecção de padrões (gravidade vs peso). A sua descoberta de criança será sua própria recompensa, o que mais uma vez é icônico: como se sabe, o que faz “traders” ganharem mais dinheiro que todos não é o foco em ganhar dinheiro, mas o desejo insaciável de estar certo. Estar certo e antes de todos.

Não contanto sequer 30 anos, aparentemente não há mais nada de novo na vida de Eric, ou pelo menos nada que o interesse o suficiente para fazer mudar sua expressão. Assistimos estupefatos às suas tentativas em sentir algo novo, onde até a palavra “novo” é referência a uma droga usada pelos jovens. Note como o rapaz nem liga para o despudor com que fala dos seus funcionários, ou a maneira apática com que assiste por um de seus monitores no carro de luxo a um ataque brutal a uma pessoa conhecida, ou até mesmo eventos extremamente impactantes ocorrendo a poucos metros a partir de sua visão das janelas de sua limusine, tudo isso filmado com a calma e a competência de um maduro Cronenberg. Talvez no fundo ele saiba que nada pode atravessar seu carro/escritório “à prova de riscos”, o que revela, através de sua falta de reação a eventos mais humanos, seu distanciamento das pessoas. Porém, ao mesmo tempo que compreendemos a postura apática diante da humanidade de Eric, é curioso acompanhar sua ânsia de conhecer tudo sobre as pessoas sob um ponto de vista observador e objeto ? o que faz inclusive com as mulheres.

Ao mesmo tempo em que sua vida é baseada em comprar coisas e ele coisifique suas relações humanas, sua verdadeira paixão ? embora notemos pela falta de outras coisas que o interesse ? é a busca por padrões. Nesse momento o roteiro encontra sua razão de ser e os diálogos começam a fazer sentido pela sua falta de um sentido simples. A vida de Eric vai desmoronando e com ela sua lógica. Nós sentimos o mesmo que ele na sua impotência de entender o Yuan. As frases que ouvimos não fazem sentido, assim como as suas ações não fazem. Incapaz de entender sua própria vulnerabilidade dentro do sistema seu único anseio é ter o seu corte de cabelo, uma ação, a única, talvez, que o remeta à sua humilde origem, o que é fácil de notar pelas paredes sujas e pela cadeira infantil da barbearia, um carrinho velho e empoeirado. O fato de quando criança não querer se sentar na cadeira para crianças é sintomático e cria uma curiosa rima com sua própria limusine.

Se, por fim, entendermos as mensagens de seu segurança a respeito da ameaça que o cerca, e todos os elementos repetidos à exaustão em meio a conversas subjetivas e codificadas com seus outros funcionários, encontraremos por fim seu arco dramático: o impassível Eric que conversa em pé no começo de um ensolarado dia não é o mesmo excitado Eric do final da noite, ansioso por uma revelação do seu próprio destino, esse que não conseguiu prever. A participação apaixonada de um Paul Giamatti cria o contraponto que esperávamos não de um antagonista, pois não há inimigos para Eric, mas de alguém que, diferente dele, mas com as mesmas condições, não conseguiu ser ninguém além de um dejeto humano. Ambos objetificam as pessoas e até os sentimentos, mas Eric possui dinheiro/poder/influência. E isso, hoje em dia, é o que faz toda a diferença.

★★★★☆ Cosmopolis. Canada, 2012. Direction: David Cronenberg. Script: David Cronenberg. Don DeLillo. Cast: Robert Pattinson. Sarah Gadon. Paul Giamatti. Kevin Durand. Abdul Ayoola. Juliette Binoche. Emily Hampshire. Bob Bainborough. Samantha Morton. Edition: Ronald Sanders. Cinematography: Peter Suschitzky. Soundtrack: Howard Shore. Runtime: 109. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Drama. Category: movies

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