Dançando No Escuro

Wanderley Caloni, May 1, 2019

“Eu gosto de musicais porque nada de ruim acontece em musicais”, diz a personagem de Björk. Bom, ela não contava com um musical por Lars Von Trier. Pobre garota.

Esta é a história de uma pessoa ingênua que possui apenas um desejo em sua vida: impedir que seu filho tenha o mesmo destino que ela: ficar cega pelo resto da vida.

Ela é fã de musicais. Nas horas vagas da fábrica, onde trabalha sem parar para economizar para a operação de seu filho, ela ensaia para ser Maria em Noviça Rebelde, mas sua miopia está em um grau avançado. Ela precisa usar os trilhos do trem para chegar em casa. Ela não aceita as caronas de um pretendente que sempre a espera na saída do serviço porque ela não pode se dar ao luxo de ter uma vida. Ela veio da Checoslováquia para a América apenas para operar seu filho.

Este é um filme onde uma comunista cega se sacrifica para salvar seu filho na terra do Tio Sam e ainda é crucificada. Ou seja, para ganhar a Palma de Ouro em Cannes com todos aplaudindo de pé por meia-hora. (Ironias à parte, décadas depois seu diretor deve ter entendido melhor a lógica sócio-polìtica do mundo e declara entender Hitler, virando persona non grata do festival.)

Björk está entregue ao papel, do começo ao fim, mas principalmente no fim. Não preciso dizer para reparar em nada. Apenas olhe para ela. Está em frangalhos, mas resiste sempre que consegue ser imaginar em um musical. O mundo te entende. Eu adoro imaginar que estamos encenando para daqui a pouco começarmos a dançar ao som das digitações dos escritórios, das impressoras velozes, das buzinas ferozes.

Lars Von Trier pega uma história específica, mas consegue universalizar em sua mensagem. Não se trata de uma mensagem de injustiça. Como sempre em seus filmes parece que a soma das circunstâncias mais a natureza humana nos levam a conclusões depressivas sobre nós mesmos, mas sempre com uma profundidade admirável.

Peço apenas para prestar atenção no número principal. Um assassinato é cometido. Todos em volta começam a dançar. A combinação de músicas que não rimam, que não animam e portanto são reais, com o absurdo da situação gera uma inversão nunca antes vista na história dos musicais. O que chega mais próximo da realidade é Noviça Rebelde, que pode ser uma comparação inusitada. De qualquer forma é essa a referência usada no filme. Björk é Maria na vida real. Quanta poesia. Coisas que só a tragédia extrema nos entrega na arte.

Mas Von Trier aqui usa parte dos elementos do movimento Dogma iniciado por ele, com pouco uso de pós-produção. A exceção fica por conta das canções. Ele acaba sendo razoável e entende que para tudo há um limite e a mixagem é feita em estúdio, quebrando sua própria regra. Mas sua câmera na mão ao mesmo tempo gera um realismo que se mistura com a arte e assim nos entrega um de seus melhores filmes.

Imagens e créditos no IMDB.
Dançando No Escuro ● Dancer in the Dark. Dinamarca, Alemanha, Nova Zelândia, ah, fala sério, 20 países, ano 2000. Dirigido e escrito por Lars Von Trier, com Björk, Catherine Deneuve, David Morse. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-01. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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