Deadpool

A fórmula Marvel de produzir super-heróis enlatados é tão maldita que só um filme como Deadpool, que brinca com toda a produção desses mesmos enlatados, para conseguir se desvencilhar, ainda que parcialmente, dos seus outros filmes lançados a balde.

É por isso que até seus créditos iniciais brincam com o processo de escalação, apresentando os personagens pelos seus estereótipos, tais como Um Cara Durão, Um Vilão, Um Personagem Feito de CGI, Uma Gostosa. Mais do que isso: declara que os roteiristas é que são os verdadeiros heróis.

Nada mais justo: realizando a façanha de através da meia-hora mais criativa e envolvente que um filme de herói tem há alguns anos, é de lá que saem os melhores diálogos, as melhores construções de personagem, os melhores ganchos para o resto do filme e a melhor quebra de quarta parede já vista em uma produção do sub-gênero, e que ainda por cima insiste em ser bem-humorado enquanto estoura miolos, arranca cabeças e esmaga corpos humanos.

E tudo isso seguindo à risca o processo de engessamento de histórias aplicado pela Marvel. É possível sentir a tensão que deve ter havido entre os roteiristas e entre quem estava com o dinheiro. Sim, os roteiristas serem os verdadeiros heróis faz todo o sentido para mim.

Os fãs devem dizer (ouço falar) que esse personagem merece o tratamento 18 anos (ou 16, no caso do Brasil) porque sem a violência gráfica seria impossível produzir um filme com ele. A violência existe, sim, e é desferida não a robôs vindos de outra galáxia ou qualquer coisa feita por computador, mas humanos. Genéricos, irrelevantes, mas humanos.

Outro ponto é que a violência é apenas violência. O “herói” Deadpool mata e ameaça pessoas, mas não passa de uma versão Peter Parker com uma moral bem flexível. E seu passado provavelmente conturbado até tenta explicar esse seu lado negro, mas não sem um propósito: ele conhece uma prostituta… quer dizer, dançarina… quer dizer, só garçonete de boate, mesmo. Ambos tem um passado pesado, e é isso. No processo até tenta se desculpar pelo conteúdo machista e… convenhamos, de controverso, quase não sobra mais nada. Ele é um herói mutante que não quer se vestir de amarelo com os X-Men. Ponto.

E, se for pensar, o que mais cansava em todos os heróis é essa tendência mágica e sobrenatural de praticar o bem (e é um bem livre de qualquer suspeita, BTW). Ate Homem de Ferro foi “corrompido” pelo câncer do politicamente correto. São tempos sombrios para figuras como Dead Pool.

E uma das grandes sacadas de casting é colocar Ryan Reynolds como o herói. Sua objeção a um uniforme verde (ele foi Lanterna Verde) e seu histórico de galã (não à toa, foi casado com Scarlett Johansson) favorecem esse jogo de anti-herói e sua aparência desfigurada. Tudo converge harmoniosamente para um anti-filme da Marvel.

E é por isso que o terceiro ato é tão decepcionante. Não pelas lutas, que são divertidinhas. Nem pelos efeitos, impressionantemente feitos em computador. O que decepciona mesmo é a volta para a normalidade, o previsível e o risco zero. Já sabemos tudo que vai acontecer desde o momento em que A Gostosa é raptada. Isso é para acabar com os poderes de qualquer mutante. E eu não colocaria dessa vez a culpa nos roteiristas.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-02-27. Deadpool. Deadpool (USA, 2016). Dirigido por Tim Miller. Escrito por Rhett Reese, Paul Wernick, Fabian Nicieza, Rob Liefeld. Com Ryan Reynolds, Karan Soni, Ed Skrein, Michael Benyaer, Stefan Kapicic, Brianna Hildebrand, Style Dayne, Kyle Cassie, Taylor Hickson. imdb