Death Note: Notas da Morte

2017/09/18

Esta série japonesa se estende por mais tempo do que devia e não entende todo o seu potencial narrativo. Esta é uma história que possui altos e baixos em torno de uma ideia poderosa, e arrisco dizer que seus altos superam seus baixos. Mas sua conclusão é clichê, comercial demais para sentir-se o peso do que estava sendo discutido.

Como praticamente todas as séries de animes japoneses que se baseiam em mangás, as falas revelam demais e os quadros são parados demais. Como contraponto, a arte é muito bem finalizada (os detalhes de cada demônio) e a edição de som facilita a sensação de movimento.

Mas esta é uma história naturalmente parada. Seu (anti?) herói é Light, um estudante brilhante que acha um caderno que lhe dá o poder de matar qualquer pessoa do mundo simplesmente escrevendo seu nome em uma das folhas do caderno. Acompanhado desde então pelo dono original do caderno, uma entidade sobrenatural chamada de Shirigami, vamos aos poucos entendendo todas as regras de uso do caderno e a maneira com que Light planeja “limpar a Terra” de todo mal, trazendo a paz e a justiça tão desejada por todos.

A parte mais fascinante de Death Note são os primeiros 10 capítulos, onde vamos acompanhando as dificuldades de um serial killer em se manter impune enquanto fica óbvio para as autoridades que alguém, de alguma forma, anda assassinando criminosos à distância. Os detalhes da investigação conduzida pelo próprio pai de Light trazem à tona a figura estereotipada de L, um super-detetive que sempre resolve seus casos e senta em cadeiras da forma mais desconfortável possível. Infelizmente este é um dos seus cacoetes. E todo herói japonês precisa ter o seu. É como eles se diferenciam.

Mas o mais impressionante na figura de L é seu aspecto não-humano. Ele tem trejeitos de um vampiro que sempre vive nas trevas, tem olhos esbugalhados que dão medo, é um anti-social convicto e pensa tão rápido quanto seu inimigo. É respeitado por todos da polícia pelo seu resultado. Sua desconfiança eterna em L em Light é montada de maneira eficiente, de forma que sua participação pode ser alongada sem soar cansativo.

Aliás, o embate intelectual dos dois vive na sombra, como os mistérios dos romances de Agatha Christie. Como espectadores somos presenteados vez ou outra com os detalhes das artimanhas de cada um, mas um dos aspectos principais de Death Note é deixar-nos torcendo por Light e buscando montar um quebra-cabeças com peças faltando.

Isso entretém até um momento. Depois o lado comercial da série vem à tona e o que era para ser um final épico vira um reboot que, não tão brilhante quanto o primeiro, se aproveita das virtudes do antecessor para gerar novamente aquele sentimento de impotência e sagacidade.

A fotografia de Death Note é sempre sombria, mesmo que seus personagens principais usem branco. O pior do ser humano poderia estar representado na figura de Light e seu lado sombrio, mas, como dita a referência obvia, Light é “luz”, iluminado. Lúcifer, em outras palavras. E não há figura bíblica mais injustiçada que ele.

Detendo o poder de subjugar a raça humana, ele decide acabar com os maus. Quantos teriam revelado a mesma virtude, em vez de trilhar o caminho mais fácil do poder, dinheiro e fama? Light quer fama, mas está disposto a sacrificar todo o resto para seguir seu código moral que, na visão dele, irá trazer o melhor dos seres humanos à tona, eliminando as víboras, os parasitas, as pragas da sociedade. Não é um objetivo digno de um vilão, mas de um herói. E o fato de sabermos que Light é um gênio apenas eleva suas ideias como provavelmente certas.

A questão que o “filme” de 13 horas se recusa a explorar essa questão de maneira dúbia, o que o tornaria aí sim algo de respeito. Ele prefere o caminho fácil, com o final fácil. Light ficaria extremamente desapontado, mais uma vez, com a humanidade.

★★★☆☆ Death Note: Desu nôto. Japan, 2006. Direction: Tetsurô Araki. Tomohiko Itô. Hiroyuki Tsuchiya. Mitsuhiro Yoneda. Eiko Nishi. Makoto Bessho. Shinji Nagamura. Oyunamu. Naoyasu Habu. Script: Takeshi Obata. Tsugumi Ôba. Toshiki Inoue. Shôji Yonemura. Yasuko Kobayashi. Cast: Mamoru Miyano (Light Yagami). Brad Swaile (Light Yagami). Vincent Tong (Touta Matsuda / ...). Ryô Naitô (Touta Matsuda / ...). Trevor Devall (Shuichi Aizawa / ...). Brian Drummond (Ryuk / ...). Naoya Uchida (Soichiro Yagami). Chris Britton (Soichiro Yagami). Keiji Fujiwara (Shuichi Aizawa / ...). Edition: Aya Hida. Cinematography: Kazuhiro Yamada. Soundtrack: Yoshihisa Hirano. Hideki Taniuchi. Runtime: 24. Ratio: 1.78 : 1. Gender: Animation. Category: series Tags: netflix

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