Deep Web

2017/03/26

Este é um documentário que irá te dar uma visão diametralmente oposta do que você já ouviu falar sobre a deep web na mídia. Para começo de conversa, o filme não fala sobre assassinos e pedófilos, e quando fala sobre crimes cibernéticos, estranhamente eles são cometidos sem vítimas. A venda de drogas em um site chamado Silk Road se apresenta um mercado onde vendedores e compradores conseguem, sem o uso da violência e evitando riscos físicos, trocar drogas de todos os tipos.

O longa coloca como exemplo drogas recreativas, como cocaína e heroína, se esquecendo do imenso potencial de salvar vidas ao comercializar para os EUA as drogas patenteadas e monopolizadas pela indústria farmacêutica de lá a preços abusivos. No entanto, como contraparte, oferece a gratificante visão das vidas anônimas salvas, que não serão vítimas da força policial na guerra contras as drogas.

O diretor e roteirista Alx Winter está desenrolando os fatos como uma série de eventos a respeito do severo julgamento de um dos criadores/mantenedores do site, Ross Ulbricht, capturado em uma operação ligeiramente ilegal do FBI, o que se for levado a cabo pode abrir precedentes para o abuso de poder digital do governo contra seus cidadãos. O processo jurídico, principalmente pelo aspecto técnico, lembra muito a truculência e as técnicas estatais vistas na excelente série documental Making a Murderer, embora não com o rigor invejável dos documentaristas daquele trabalho.

Aqui a sensação é que não houve um empenho muito grande em explicar as bases filosóficas do autor de Silk Road, um libertário convicto que parece pelos seus comentários online ter criado o serviço não apenas como um empreendimento capitalista, mas como uma declaração política. O libertarianismo está se espalhando de vento em popa pela internet conforme sua coerência é desafiada por qualquer discussão política em que ele apareça, mas para o público comum, esse ainda pode ser um tema bem espinhoso, e apenas relacionar o criador de um chamado traficante (pelo governo) com figura como o economista mais brilhante do século passado, Ludwig von Mises, pode tornar os conceitos mais confusos do que esclarecedores.

Por outro lado, o jogo de cena do filme é abalado pela verdadeira cortina de fumaça que parece ter se instaurado nos detalhes do processo, justificando as explicações em torno do uso democrático de uma criptografia que torne a privacidade das pessoas algo realmente sério e independente de autorização governamental. Porém, assim como é citado pelo narrador, a principal dificuldade de revolucionários matemáticos contemporâneos em garantir liberdade e privacidade não é criar a tecnologia, mas torná-la viável para o usuário final. E isso nem o documentário parece conseguir cumprir. Eu sou um crítico de cinema, mas também um profissional da área; entendo perfeitamente os processos que essas mentes brilhantes estão conduzindo. Mas, infelizmente, Tor, bitcoin e criptografia assimétrica são temas obscuros para o grande público, e o seu uso transparente depende cada vez mais de grandes corporações como Google e Apple.

De qualquer forma, este documentário é o grande aviso de vanguarda do que está a vir no mundo. Mesmo sendo conduzido por métodos burocráticos, se trata de um trabalho de referência, que pode vir a ser útil se você quiser se aprofundar mais nos temas que unem direitos civis, internet, privacidade e liberdade individual.

★★★★☆ Deep Web. USA, 2015. Direction: Alex Winter. Script: Alex Winter. Cast: Nicolas Christin (Himself). Cindy Cohn (Herself). Joshua L. Dratel (Himself). Andy Greenberg (Himself). Keanu Reeves (Narration). Runa Sandvik (Herself). Todd Shipley (Himself). Christopher Soghoian (Himself). Amir Taaki (Himself). Edition: Dan Swietlik. Cinematography: Anghel Decca. Joe DeSalvo. Soundtrack: Pedro Bromfman. Runtime: 90. Gender: Documentary. Category: movies Tags: netflix

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