Deep Web

Este é um documentário que irá te dar uma visão diametralmente oposta do que você já ouviu falar sobre a deep web na mídia. Para começo de conversa, o filme não fala sobre assassinos e pedófilos, e quando fala sobre crimes cibernéticos, estranhamente eles são cometidos sem vítimas. A venda de drogas em um site chamado Silk Road se apresenta um mercado onde vendedores e compradores conseguem, sem o uso da violência e evitando riscos físicos, trocar drogas de todos os tipos.

O longa coloca como exemplo drogas recreativas, como cocaína e heroína, se esquecendo do imenso potencial de salvar vidas ao comercializar para os EUA as drogas patenteadas e monopolizadas pela indústria farmacêutica de lá a preços abusivos. No entanto, como contraparte, oferece a gratificante visão das vidas anônimas salvas, que não serão vítimas da força policial na guerra contras as drogas.

O diretor e roteirista Alx Winter está desenrolando os fatos como uma série de eventos a respeito do severo julgamento de um dos criadores/mantenedores do site, Ross Ulbricht, capturado em uma operação ligeiramente ilegal do FBI, o que se for levado a cabo pode abrir precedentes para o abuso de poder digital do governo contra seus cidadãos. O processo jurídico, principalmente pelo aspecto técnico, lembra muito a truculência e as técnicas estatais vistas na excelente série documental Making a Murderer, embora não com o rigor invejável dos documentaristas daquele trabalho.

Aqui a sensação é que não houve um empenho muito grande em explicar as bases filosóficas do autor de Silk Road, um libertário convicto que parece pelos seus comentários online ter criado o serviço não apenas como um empreendimento capitalista, mas como uma declaração política. O libertarianismo está se espalhando de vento em popa pela internet conforme sua coerência é desafiada por qualquer discussão política em que ele apareça, mas para o público comum, esse ainda pode ser um tema bem espinhoso, e apenas relacionar o criador de um chamado traficante (pelo governo) com figura como o economista mais brilhante do século passado, Ludwig von Mises, pode tornar os conceitos mais confusos do que esclarecedores.

Por outro lado, o jogo de cena do filme é abalado pela verdadeira cortina de fumaça que parece ter se instaurado nos detalhes do processo, justificando as explicações em torno do uso democrático de uma criptografia que torne a privacidade das pessoas algo realmente sério e independente de autorização governamental. Porém, assim como é citado pelo narrador, a principal dificuldade de revolucionários matemáticos contemporâneos em garantir liberdade e privacidade não é criar a tecnologia, mas torná-la viável para o usuário final. E isso nem o documentário parece conseguir cumprir. Eu sou um crítico de cinema, mas também um profissional da área; entendo perfeitamente os processos que essas mentes brilhantes estão conduzindo. Mas, infelizmente, Tor, bitcoin e criptografia assimétrica são temas obscuros para o grande público, e o seu uso transparente depende cada vez mais de grandes corporações como Google e Apple.

De qualquer forma, este documentário é o grande aviso de vanguarda do que está a vir no mundo. Mesmo sendo conduzido por métodos burocráticos, se trata de um trabalho de referência, que pode vir a ser útil se você quiser se aprofundar mais nos temas que unem direitos civis, internet, privacidade e liberdade individual.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2017-03-26. Deep Web. Deep Web (USA, 2015). Dirigido por Alex Winter. Escrito por Alex Winter. Com Nicolas Christin (Himself), Cindy Cohn (Herself), Joshua L. Dratel (Himself), Andy Greenberg (Himself), Keanu Reeves (Narration), Runa Sandvik (Herself), Todd Shipley (Himself), Christopher Soghoian (Himself), Amir Taaki (Himself). imdb