Demônio de Neon

Demônio de Neon consegue discutir a questão da moda, da arte e do auto-sacrifício sem apelar para mi-mi-mis do feminismo marxista atual. O filme pula essa camada superficial e descerebrada da discussão adentrando no cerne da questão: a fascinação que a estética exerce sobre seres humanos e como isso funciona hoje no mercado da arte. O mais curioso de tudo é como isso lembra a nossa própria querida, industrializada e consumista sétima arte.

Senão, vejamos. A indústria da moda tem por objetivo vender roupas. Ponto. Porém, ela não deixa de ser uma forma de arte, pois expressa a dinâmica estética de nossa sociedade para captar seu mercado consumidor, e ignore por um minuto seu preconceito desvinculado da realidade econômica que dita que a influência vem de cima pra baixo (o que seria uma tremenda exceção de como funciona o capitalismo). As pessoas não gostam do feio. Feio é rum. Bonito é bom. Não inverta as coisas.

Dentro desse grande esquema, o objetivo dos produtores é associar seus produtos com a beleza inerente do ser humano: uma modelo jovem, linda, e magra. Em outras palavras: Elle Fanning. Ela é a protagonista que faz o papel de moça direita recém-chegada do interior e que cresce em um universo quase que onírico de Los Angeles, lembrando de Naomi Watts em Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001), mas ao mesmo tempo simbólico, flertando com 2001: Uma Odisseia no Espaço (Kubrick, 1968). Porém, diferente da personagem de Watts, Fanning já chega rica na cidade. Ela nasceu rica: sua beleza é natural e estonteante. Sua pele é desejada por todas as amigas que irá encontrar nos testes e ensaios que precisará participar para atingir o objetivo maior: o topo. O reconhecimento que ela foi abençoada pelos deuses dos genes.

E por falar em deuses, há um demônio muito bem escondido nos símbolos do filme: a Esfinge. Note como a entidade mitológica grega é um leão com cabeça de mulher, que olha ostentadoramente para os humanos que tentam passar por Ela. Ha um enigma obrigatório a ser desvendado: qual o ser disforme que muda a quantidade de patas durante o dia? A resposta não poderia ser mais irônica: o próprio homem. No entanto, os que não conseguem desvendar os símbolos no filme (e na peça grega) estão condenados a serem devorados pela Esfinge.

O que nos leva ao segundo ponto importantíssimo no filme: o horror, e a igual fascinação nossa por ele. A primeiríssima cena já nos apresenta essa dualidade (além de dar pistas para desvendar o filme inteiro): uma belíssima moça morta em um divã, com o sangue escorrendo pelos seus braços. O sangue escorre e ela morre, mas lindamente. A câmera se afasta, como em veneração, por uma deusa da beleza e do horror. Seria essa dualidade a grande crítica à arte consumista, seja Cinema, Moda, ou nomeie-aqui-o-próximo-sucesso-de-vendas?

O filme de Nicolas Winding Refn (Drive), que dirige e escreve a história, possui obviamente uma estética impecável, com uma fotografia e direção de arte que exigem serem notados (além de uma trilha sonora devidamente inspirada). A história é simples, e a única tensão é observar como os grandiosos estúdios onde as modelos servem aos seus mestres – fotógrafos e estilistas – contrastam com onde as beldades se maquiam ou onde vivem: lugares apertados, escuros, onde o único vislumbre de beleza são seus próprios reflexos no espelho (e há espelhos nesses dois ambientes). A disputa entre as moças é um entretenimento, mas, mais uma vez, não se deixe distrair pelo verdadeiro significado do filme: é sobre nosso comportamento, a essência estética do ser humano.

Nesse sentido, o filme abraça seu tema e sua discussão de todas as formas possíveis, incluindo as últimas consequências do seu simbolismo, que reúne os sacrifícios que modelos geralmente passam, como não comer. A forma de expressar o horror do sacrifício é um sacrifício em si mesmo, e mais uma vez o que vemos é horrível – e cenas fortes virão – mas mais horrível ainda é essa fascinação que temos com o horror e a beleza. A beleza do horror ganha novos contornos nos minutos finais de um filme que é tudo menos tímido.

E de brinde, uma linda música da cantora/compositora Sia nos créditos finais, que irá ganhar uma conotação nunca antes vista para esse tipo de gênero.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-09-23 imdb