Demônio de Neon

Sep 23, 2016

Imagens

Demônio de Neon consegue discutir a questão da moda, da arte e do auto-sacrifício sem apelar para mi-mi-mis do feminismo marxista atual. O filme pula essa camada superficial e descerebrada da discussão adentrando no cerne da questão: a fascinação que a estética exerce sobre seres humanos e como isso funciona hoje no mercado da arte. O mais curioso de tudo é como isso lembra a nossa própria querida, industrializada e consumista sétima arte.

Senão, vejamos. A indústria da moda tem por objetivo vender roupas. Ponto. Porém, ela não deixa de ser uma forma de arte, pois expressa a dinâmica estética de nossa sociedade para captar seu mercado consumidor, e ignore por um minuto seu preconceito desvinculado da realidade econômica que dita que a influência vem de cima pra baixo (o que seria uma tremenda exceção de como funciona o capitalismo). As pessoas não gostam do feio. Feio é rum. Bonito é bom. Não inverta as coisas.

Dentro desse grande esquema, o objetivo dos produtores é associar seus produtos com a beleza inerente do ser humano: uma modelo jovem, linda, e magra. Em outras palavras: Elle Fanning. Ela é a protagonista que faz o papel de moça direita recém-chegada do interior e que cresce em um universo quase que onírico de Los Angeles, lembrando de Naomi Watts em Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001), mas ao mesmo tempo simbólico, flertando com 2001: Uma Odisseia no Espaço (Kubrick, 1968). Porém, diferente da personagem de Watts, Fanning já chega rica na cidade. Ela nasceu rica: sua beleza é natural e estonteante. Sua pele é desejada por todas as amigas que irá encontrar nos testes e ensaios que precisará participar para atingir o objetivo maior: o topo. O reconhecimento que ela foi abençoada pelos deuses dos genes.

E por falar em deuses, há um demônio muito bem escondido nos símbolos do filme: a Esfinge. Note como a entidade mitológica grega é um leão com cabeça de mulher, que olha ostentadoramente para os humanos que tentam passar por Ela. Ha um enigma obrigatório a ser desvendado: qual o ser disforme que muda a quantidade de patas durante o dia? A resposta não poderia ser mais irônica: o próprio homem. No entanto, os que não conseguem desvendar os símbolos no filme (e na peça grega) estão condenados a serem devorados pela Esfinge.

O que nos leva ao segundo ponto importantíssimo no filme: o horror, e a igual fascinação nossa por ele. A primeiríssima cena já nos apresenta essa dualidade (além de dar pistas para desvendar o filme inteiro): uma belíssima moça morta em um divã, com o sangue escorrendo pelos seus braços. O sangue escorre e ela morre, mas lindamente. A câmera se afasta, como em veneração, por uma deusa da beleza e do horror. Seria essa dualidade a grande crítica à arte consumista, seja Cinema, Moda, ou nomeie-aqui-o-próximo-sucesso-de-vendas?

O filme de Nicolas Winding Refn (Drive), que dirige e escreve a história, possui obviamente uma estética impecável, com uma fotografia e direção de arte que exigem serem notados (além de uma trilha sonora devidamente inspirada). A história é simples, e a única tensão é observar como os grandiosos estúdios onde as modelos servem aos seus mestres – fotógrafos e estilistas – contrastam com onde as beldades se maquiam ou onde vivem: lugares apertados, escuros, onde o único vislumbre de beleza são seus próprios reflexos no espelho (e há espelhos nesses dois ambientes). A disputa entre as moças é um entretenimento, mas, mais uma vez, não se deixe distrair pelo verdadeiro significado do filme: é sobre nosso comportamento, a essência estética do ser humano.

Nesse sentido, o filme abraça seu tema e sua discussão de todas as formas possíveis, incluindo as últimas consequências do seu simbolismo, que reúne os sacrifícios que modelos geralmente passam, como não comer. A forma de expressar o horror do sacrifício é um sacrifício em si mesmo, e mais uma vez o que vemos é horrível – e cenas fortes virão – mas mais horrível ainda é essa fascinação que temos com o horror e a beleza. A beleza do horror ganha novos contornos nos minutos finais de um filme que é tudo menos tímido.

E de brinde, uma linda música da cantora/compositora Sia nos créditos finais, que irá ganhar uma conotação nunca antes vista para esse tipo de gênero.

Wanderley Caloni, 2016-09-23. Demônio de Neon. The Neon Demon (France, 2016). Dirigido por Nicolas Winding Refn. Escrito por Nicolas Winding Refn, Nicolas Winding Refn, Mary Laws, Polly Stenham. Com Elle Fanning, Karl Glusman, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee, Desmond Harrington, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Charles Baker. IMDB. Em breve crítica no CinemAqui.