Desejo de Matar (1974)

May 22, 2018

Imagens

O primeiro Desejo de Matar, de 1974, teve a censura nos cinemas colocada em 14 anos. O novo Desejo de Matar, com Bruce Willis, com uma história muito próxima (e sem peitinhos) saiu nos cinemas com censura 18 anos. Não imagino dado mais relevante para a mudança da cultura americana nas últimas décadas, onde sua população mudou de donos do próprio destino para cordeirinhos prontos para se deixar açoitar por criminosos de qualquer espécie pelo bem do pacifismo irracional e auto-destrutivo.

O filme de Michael Winner estrela Charles Bronson, um dos durões da época. Bronson não é um ator versátil e está aqui mais como um símbolo de resistência. “Quando os homens eram homens…”. Ele faz um engenheiro civil que teve sua casa invadida por três marginais quando sua esposa e sua filha estava sozinhas. Sua esposa é morta pelo conflito e sua filha traumatizada para o resto da vida. Seu genro é o cordeirinho que falava no parágrafo acima, e talvez ele já fosse maioria na época. Hoje ele é o argumento político para banir as armas: somos civilizados se entregarmos toda nossa proteção a estranhos contratados pelo governo e com moral duvidosa.

Essa moral duvidosa é tão bem caracterizada pelo detetive do filme, o gordo e suado Vincent Gardenia em um daqueles casts perfeitos que acontecem de vez em quando, que não há nada a ser dito sobre como funciona a execução da lei nas ruas americanas, notadamente Nova York. Um fato interessante: no filme original o personagem de Bronson, Paul Kersey, começa em Nova York e termina em Chicago. No novo filme com Willis o “mesmo” Paul Kersey (agora cirurgião e pai de outra família) sai de Chicago e vai parar em Nova York. E em ambas as situações a polícia é incompetente e corrupta, ou leniente com suas próprias leis, até certo ponto.

O roteiro de Wendell Mayes difere do de Joe Carnahan (a versão com Bruce Willis) apenas na intensidade. Mas a mensagem parece ficar mais clara aqui: fazer a lei com as próprias mãos é uma função de todo cidadão que se preze, e não há nada de errado nisso. Este filme é mais americano no sentido tradicional que seu remake, não há dúvida. Ou estaríamos vivendo uma nova era de maricas?

A mulher de Bronson morre brutalmente e no seu enterro ele ainda não mudou sua cara desde a despedida de suas férias com a esposa no Havaí, nem deixou de usar seu característico bigode. Bronson não é um ator em trabalho, mas um símbolo. Ele e Willis protagonizando o mesmo filme em décadas distintas é um daqueles momentos iluminados do Cinema de ação policial misturado com drama.

Os temas do filme são jogados e finalizados na mesma fala. Você sabe a história: Bronson usa uma arma que ganhou de presente de um dos clientes do Texas e resolve executar a lei com as próprias mãos nas perigosas ruas de Nova York, que, dito e feito, se torna menos perigosa a cada noite que o vigilante entra em ação. “Esse justiceiro ataca mais bandidos negros”, diz uma modelo em uma festa chique. “Talvez porque existam mais bandidos negros que brancos; poderíamos equilibrar a desigualdade promovendo mais bandidos brancos.”. Bang! Este filme não problematiza a vida real, ele a interpreta como qualquer pessoa decente interpretaria. Você está agindo errado? Você merece uma bala na sua cabeça. Seja sua cabeça preta, branca ou amarela.

Wanderley Caloni, 2018-05-22. Death Wish (EUA, 1971). Escrito por Wendell Mayes baseado no romance de Brian Garfield. Dirigido por Michael Winner. Com Charles Bronson, Hope Lange, Vincent Gardenia. IMDB.