Detroit em Rebelião

2017/09/27

Este é o mais novo trabalho da diretora especialista em retratar eventos da vida real como ficção estilizada, Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror, A Hora Mais Escura). Aqui ela reproduz um incidente tenso ocorrido em um motel durante as revoltas do verão de 1967 em Detroit. E tudo no filme carrega emoção. As luzes amarelas, a fotografia granulada (evocando a época) junto da direção de arte e dos recortes de imagens reais. Até as falas conseguem subverter a realidade pelo bem da ficção.

Porém, isso é desonesto a partir de um certo ponto. Mostrando os negros como vítimas absolutas da força policial, vemos um pai de família saqueando um mercado em busca de mantimentos ser caçado como um animal por um policial que se arrepende apenas de não ter conseguido matá-lo. E toda a cena se passa com o poder imediatista de uma câmera na mão.

Sim, os personagens vistos em “Detroit” são um pouco estereotipados e caricatos. Isso é reflexo dos tempos atuais de “justiça” social. Porém, isso não desmecere o apuro técnico e narrativo de um dos melhores roteiros do companheiro de Bigelow nos filmes, Mark Boal. Boal consegue aqui obter pequenas pérolas que podem não estar inseridas em um filme completamente à altura, mas que com certeza serão lembradas. Quem se esqueceria de um cantor de talento tendo sua apresentação-chave frustrada pelo estado de caos na cidade e decidindo cantar para uma plateia vazia? E o personagem de John Boyega – que aqui prova que é muito melhor que em Star Wars – dizendo de maneira racional a um jovem “se você vencê-lo, seus dez companheiros do lado virão; e atrás deles há mais dez mil”.

Além disso, em tom documental, a história segue um fio narrativo de acordo com os eventos e faz emergir os personagens que precisa quase que casualmente. Quando eles se encontram no Motel, é como se pudéssemos apontar para cada um deles como seres humanos de carne e osso, que em vez de terem apresentações vazias e apressadas passaram cada um deles por alguns momentos que os definiram para o espectador. A partir daí esta panela de pressão apenas faz o que deveria se aumentado o fogo.

Claro que há muitos “disse-que-disse” nesta história, e Bigelow não pretende deixar quase nada sob a imaginação de quem assiste. Ela quer de fato explorar as coisas do ponto de vista de alguém de nossa época, onde o filme que retrata uma revolta em tempos de segregação volta a assombrar os tempos atuais com o mesmo sentimento, fazendo com que o filme acidentalmente se torne um documentário desta época, e não dos anos 60.

E esse é o poder do Cinema. De fazer com que as melhores história ainda revelem a mente de seus criadores. Além de puro entretenimento, ainda que tenso e sem nenhum alívio cômico, “Detroit” é um documentário dos valores de nossa sociedade, que enxergam negros como vítimas incapazes de se proteger. E o que fazer quando a proteção está nas mãos erradas? Eis o seu drama atual travestido de história.

★★★★★ Detroit. USA, 2017. Direction: Kathryn Bigelow. Script: Mark Boal. Cast: John Boyega (Dismukes). Will Poulter (Krauss). Algee Smith (Larry). Jacob Latimore (Fred). Jason Mitchell (Carl). Hannah Murray (Julie). Jack Reynor (Demens). Kaitlyn Dever (Karen). Ben O'Toole (Flynn). Edition: William Goldenberg. Harry Yoon. Cinematography: Barry Ackroyd. Soundtrack: James Newton Howard. Runtime: 143. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Crime. Release: 12 October 2017. Category: movies Tags: cabine

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