Deus da Carnificina

Oct 7, 2015

Imagens

Deus da Carnificina só funciona tão bem porque as pessoas que nele estão continuam sendo elas mesmas até o fim, e usam personalidades extremamente triviais, que fazem parte do dia-a-dia de qualquer um (ainda mais nas infinitas discussões de internet). Não há seres complexos demais neste filme, mas ideias antagônicas construídas através de quatro performances que ecoam até a duração do próximo argumento. Não há agressão física que consiga se comparar a um embate de ideias que, diferente dessa, nunca termina quando um dos lados cai no chão.

Dirigido por Roman Polanski, que adaptou uma peça de teatro junto da sua escritora, Yasmina Reza, este é, junto do recente A Pele de Vênus, um trabalho intimista, concentrado em um espaço fechado onde poucos atores contracenam e possuem interação e tempo de tela suficiente para desbravar seus personagens até seus limites, que é o que ironicamente acontece após se reunirem depois que o filho de um dos casais bate no filho de outro casal. A cena é mostrada nos créditos iniciais, e é apenas isso que nos é revelado até então. De repente, somos jogados para a tela de computador da prática Penelope Longstreet compilando um testemunho do que aconteceu com seu filho e o do casal ao lado.

Não por coincidência, Deus da Carnificina conta com quatro expoentes de peso em seu enxuto elenco. Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly contracenam por 80 minutos em uma miríade de ideias que vão se remoendo em torno do único fato que de fato culminou em um prejuízo físico: o filho de Waltz e Winslet acertou o rosto do filho de Foster e C. Reilly, arrancando dois dentes, um em estado irrecuperável. Para um filme como esse, acho que nada melhor do que tentar destrinchar cada um desses quatro fascinantes (ou irritantes) personagens.

John C. Reilly é Michael Longstreet, um vendedor de equipamentos domésticos que mantém sua vida pacata e dentro dos limites financeiros que ele e sua esposa organizaram. Não muito disposto a criar conflito, sempre tenta reconciliar um dos lados após uma pequena troca de farpas, e seu jeito meio falastrão – onde C. Reilly adiciona um tom de voz acima dos demais e um jeito engraçado de entoar as palavras, revelando sua regionalidade e simplicidade – dá a entender que é um bom sujeito. Possui uma alma de comerciante, pois apesar de sua modesta profissão, consegue produtos caros e difíceis de achar, como um uísque de 18 anos de uma destilaria pequena ou charutos de variadas marcas. Não gosta de se gabar muito, mas podemos ver em seu pequeno sorriso e seu olhar cabisbaixo que não gosta de discutir por achar que suas decisões estão acima do julgamento alheio, o que parece ter permitido com que ele convivesse com sua certinha esposa Penelope.

Christoph Waltz é Alan Cowan, um advogado. Desses que fica no celular a maior parte do tempo cuidando de seus casos, o atual em específico defendendo uma empresa de medicamentos. Cowan não queria estar na casa dos Longstreet, acha desnecessário usar seu tempo para cuidar de um filho que considera maníaco, e cuja ação já era perfeitamente previsível, além de não acreditar em qualquer mudança em sua atitude, independente da punição ou da forma de abordá-la. É um cínico, que prefere entregar para sua esposa, Nancy, as “obrigações do lar”, mas está sempre pronto para acusá-la dos resultados com seu filho. Não da maneira habitual, obviamente, mas através de pequenos gestos quase indetectáveis – como um jogar de ombros ou a forma de andar irreverente que Waltz personifica com maestria – e, claro, da forma como pronuncia certas palavras em seu discurso molenga, embora sempre enfático a respeito da realidade que nos cerca. Cowan, desnecessário dizer, tem certeza de como as coisas funcionam.

Kate Winslet é Nancy Cowan, uma negociante da bolsa de valores que exibe em sua fachada uma maneira e um falar doce que tenta sintetizar o que está sendo discutido e mover em frente. Por dentro, no entanto, principalmente depois que bebe, demonstra ser uma pessoa tão direta (ou rude) quanto seu próprio marido, que critica justamente por não tentar ser alguém mais gentil ou aberto a responsabilidades, como a de cuidar de seu filho. Prática, tenta esconder sua hipocrisia sem ser totalmente arrogante como Alan, mas se mantém firme em discussões, algo que faz muito sentido de acordo com sua profissão que exige pulso firme. A maneira com que Winslet desfila pela sala de estar dos Longstreet e o tom emplumado de discurso nos faz acreditar nessa plataforma inatingível, mas piedosa, que Nancy fabrica tão bem para seu próprio deleite.

Jodie Foster, por fim, é Penelope Longstreet, a certinha e politicamente correta (sempre tem que haver uma, não?). Disposta a consertar o mundo, escreveu um livro sobre atrocidades na África, e planeja escrever outro. Acredita que a “comunidade” deve estar sempre engajada pelo coletivo, e se escandaliza diante de posições que destoem dessa sua visão de vida. Sempre cruzando os braços ao fechar sua fina blusa, se curvando e dourando suas falas com palavras que, embora não pronunciadas com ênfase como Alan faria, enfatiza sua opinião ao trazer termos que já trazem sua carga emotiva, mas, mais revelador, julgadora. De certa forma, Penelope também se acha dona da razão (uma qualidade sine qua non de politicamente corretos, diga-se de passagem). Porém, sua sinceridade em defender seus argumentos e sua reação quando eles não são compreendidos ou abraçados a torna a personagem mais vulnerável, honesta e, talvez, a visão do espectador pouse justamente sobre ela, já que é a visão do “inocente”.

Através de uma casa onde o banheiro é uma suíte no final do último corredor, e montando seu palco em uma sala de estar cujo teto geralmente está à vista, e uma estante acaba por cortá-la e dar um ar de pequenez, o design de som quase vira um quinto personagem, já que ele é vital para que compreendamos determinados momentos, como quando Alan precisa falar ao celular, mas ao fundo o trio restante continua conversando, em que um tenta anular o outro falando mais alto. Ou quando Michael abre a janela para arejar a sala, onde ouvimos o barulho do trem ao lado e essa sensação de que o bairro onde vivem não é exatamente de luxo. Porém, ao mesmo tempo usando uma razão de aspecto ampla, Polanski consegue inserir seus personagens nos mais icônicos enquadramentos, possibilitando não apenas que vejamos todas suas expressões e movimentos, mas também composições em que ele joga com a profundidade, trazendo um ou mais personagens à frente e outro(s) atrás, e isso de uma maneira em que tudo soe extremamente fluido. A edição dessa vez de Hervé de Luze, colaborador habitual do diretor, merece créditos por conseguir destrinchar completamente os ambientes e fazer-nos crer que tudo está sendo filmado em uma única e arrebatadora sequência.

Por fim, Deus da Carnificina só não é um trabalho irrepreensível porque em determinados momentos a situação se apresenta inverossímil ou forçada demais, e os personagens estão tão empenhados em continuar com a discussão, que de certa forma isso acaba traindo a visão, compartilhada pelo diretor, que ninguém está de fato ligando para o decorrer da questão principal (o pedido de desculpa de um filho para o outro). E mesmo assim, merece créditos em pontuais momentos onde são inseridas falas falsas (“nem sei mais o que quero dizer”) ou comportamentos comuns de pessoas na vida real. Talvez com esse foco todo na argumentação, no entanto, o filme talvez tente mostrar que, apesar das pessoas sempre preferirem expor que não ligam para questões que envolvem outras pessoas que não elas mesmas (até com um filho), no fundo todos querem ter razão, e lutarão (verbalmente, que seja) até o fim para conseguir com que sua visão de vida seja ouvida, quiçá aceita como determinante. Nesse sentido, seja por um lado ou pelo outro, o egoísmo – ou o egocentrismo – é o que nos move.

Nesse sentido, talvez a última cena, já nos créditos finais, demonstre não apenas a única mensagem positiva do filme, mas como uma moral de como as coisas são muito mais simples do que parecem. Especialmente se vista sob os olhos de uma criança. Talvez seja bom, de vez em quando, pararmos com nossas pequenas guerras de opinião e tentarmos enxergar a vida como a víamos quando tínhamos 11 anos. Não machuca tentar.

Wanderley Caloni, 2015-10-07. Deus da Carnificina. Carnage (France, 2011). Dirigido por Roman Polanski. Escrito por Yasmina Reza, Yasmina Reza, Roman Polanski, Michael Katims. Com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly, Elvis Polanski, Eliot Berger, Joseph Rezwin, Nathan Rippy, Tanya Lopert. IMDB.