Deus Não Está Morto

Nietzsche havia alertado aos pensadores mais livres já no século XVII: deus está morto. Hoje, de uma maneira irônica, um movimento encabeçado por cristãos anuncia aos quatro ventos: foda-se a lógica!

É basicamente sobre isso o longa dirigido por Harold Cronk, inspirado em diversos movimentos estudantis em faculdades americanas onde a liberdade de crença foi posta em xeque.

No entanto, girando em torno de uma aula de filosofia, o filme já começa mal, pois dispondo de uma lógica cristalina apresentada pelo professor Radisson (Kevin Sorbo), o objetivo do semestre é estudar filósofos ateus cuja premissa básica é eliminar primeiramente as crendices sobrenaturais, algo natural e esperado.

Ainda assim, os argumentos do único estudante que não consegue conciliar sua fé e sua razão e assinar um papel escrito “deus está morto” – para tirar essa dúvida da cabeça dos estudantes desde a primeira aula – são surpreendentemente razoáveis, e sua motivação louvável. Infelizmente, o jovem Josh Wheaton (Shane Harper) não é lá uma pessoa muito carismática, falhando em puxar o espectador para o seu caminho divino. Aliás, nenhum das centenas de outros personagens cristãos do filme possuem qualquer traço distinto do que se espera de um cristão estereotipado: calmo, não-agressivo, cabeça baixa, ideias parcas e frases bíblicas prontas para serem ditas ao vento.

Por outro lado, o impertinente Radisson, a “voz da razão”, não parece tão preocupado com o estudante quando oferece a ele 20 minutos de suas aulas para tentar defender a existência do ser criador do universo. Na verdade, ele se diverte, assim como nós. Enquanto isso, histórias são narradas em paralelo, todas com uma pontinha de parábola, seja em seu tom inacreditável, ou sua voz oculta de moral. Ah, essa moral tão conhecida dos religiosos, sempre à espreita para espinhar a vida dos não-crentes.

A parte mais desonesta de Deus Não Está Morto é que os argumentos de Wheaton obviamente são fajutos, e desmascarados em cinco minutos de pesquisa na internet. Provavelmente várias pessoas já os ouviram. No entanto, o filme os mostra como frutos de uma mente sã e que resolveu de fato usar a razão para defender a ideia de um ser criador que, de acordo com ele, é inevitável. Criando dessa forma uma rivalidade entre o “sim” e o “não”, há um quê de fascinante em tentar desvendar as reais intenções dos criadores do filme, ou como elas serão reveladas. Serão sutis?

Nem um pouco. Na última meia-hora, uma enxurrada de moral invade nossos olhos, ensinando que todos os caminhos fora do apresentado pelo protagonista são maus e condenáveis. Até o do chinês, que é ateu por ter vivido em um país em que a religião é fortemente desencorajada, se não proibida. Mais um traço desonesto a ser lançado no jogo das cartas marcadas.

Não poupando sequer o prazer sádico ao determinar o destino de seu rival através das mais batida das “ameaças” que os crentes fazem a ateus, Deus Não Está Morto é a prova convicta que, se não sabemos ainda onde encontrar evidências de sua infinita bondade, ao menos sabemos onde está sua prova contrária: infinita maldade, mau-caratismo e desonestidade. Esses estão bem vivos, talvez mais do que nunca.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2015-09-28. Deus Não Está Morto. God's Not Dead (USA, 2014). Dirigido por Harold Cronk. Escrito por Hunter Dennis, Chuck Konzelman, Chuck Konzelman, Cary Solomon, Cary Solomon. Com Kevin Sorbo, Shane Harper, David A.R. White, Dean Cain, Michael Tait, Jody Davis, Jeff Frankenstein, Duncan Phillips, Willie Robertson. imdb