Dexter - O Final

“Dexter Morgan é um ser humano buscando seu lugar no mundo.” Essa frase inicial do meu texto sobre a sétima temporada foi minha conclusão a respeito de toda a série e as motivações de seu anti-herói, protagonizado de maneira extremamente competente por Michael C. Hall do começo ao fim. Para mim, portanto, essa ambição de Dexter seria a direção natural por onde o grand finale se nortearia, já que vimos até então tentativas – muitas frustadas, mas em sua maioria não – de um sociopata se encaixar na sociedade de uma forma a não machucar pessoas, ou pelo menos pessoas que não “mereçam” ser machucadas (isso depende do nível do politicamente correto de cada um).

Infelizmente, o potencial de um retorno de qualidade na direção e roteiro vistos na temporada anterior se desmancharam como um castelo de cartas mal construído, e a curva de evolução de Dexter – e de nós, espectadores – não chegou sequer próximo de se completar. Pior: o último episódio da série viola sua própria lógica interna ao penalizar uns personagens e outros não. Mas chegaremos lá.

Portanto, spoilers ahead!

A grande revelação dessa vez era algo mais ou menos esperado de quem já havia acompanhado todo o presente da vida do serial killer e foi de fato uma ótima ideia: o velho Harrison não conseguiria sozinho construir uma metodologia (“o código”) com uma estrutura psicológica forte o suficiente para que um assassino sem emoções conseguisse seguir firmemente no decorrer dos anos. Dessa forma, nada mais natural que houvesse ajuda profissional. É com essa lógica inabalável que conhecemos a Dra. Evelyn Vogel (Charlotte Rampling, do ótimo Swimming Pool), uma psiquiatra que se especializou no estudo de psicopatas e que arruma um pretexto para se apresentar a Dexter, sua “criação” feita em conjunto com seu pai adotivo.

A ideia é boa, mas sua execução passa por diálogos expositivos demais e uma narrativa que não está à altura das jogadas inteligentes que estamos acostumados a acompanhar na série. A Dra. Evelyn está longe de ser interessante, jogando seu palavriado médico para qualquer um que queira ouvir, destrinchando a mente das pessoas com quem conversa sem o menor respeito, pudor ou modéstia, seja essa pessoa a priori destituída de emoções (um psicopata como Dexter) ou uma pessoa comum (Débora). Sua antipatia não está sequer aliada a uma possível genialidade controversa, pois Vogel está mais interessada em coletar mais informações sobre seus pacientes, pois apesar do título de Doutora, parece se surpreender a cada novo passo de um novo assassino, ou do próprio Dexter.

Ainda pior é acompanhar uma espécie de terapia de irmãos para que Débora entenda como seu irmão “funciona” e o aceite, além de deixar seu amor platônico de lado (a pior grande ideia de toda a série). A mesma espécie de terapia será conduzida depois com o retorno de Hannah e o surgimento de Zach Hamilton (Sam Underwood, muito bom), um garoto problemático e, exatamente por ser jovem ainda, com potencial de, assim como Dexter, ter seus desejos “canalizados para o bem”.

Felizmente ou infelizmente, todas essas ideias, más ou boas, são rapidamente descartadas ao final de cada episódio, gerando cada vez mais dúvidas sobre a capacidade dos roteiristas de finalizar a série com o mínimo de dignidade. Há tantas fugas de tema que cada episódio começa a se fechar nele mesmo – como a rápida conclusão a respeito de Zach –, tornando Dexter um entretenimento cada vez mais televisivo (no mal sentido do termo). Para quem acompanhava Dexter pelas reflexões que ele gerava, o final do personagem tanto poderia ser na cadeira elétrica quanto pai de família recuperado. Desde, é claro, que houvesse a redenção final de um protagonista que cresceu muito nas boas temporadas, mas que se manteve mais ou menos o mesmo nas ruins.

Onde chegamos nos últimos quatro episódios da temporada que vão aos poucos jogando no fundo do ralo todos os bons personagens dessa antes instigante série. O vilão da série se limita a virar um arquétipo decepcionante de um serial killer clássico, a descoberta de sua origem é interessante nos primeiros cinco minutos até virar igualmente patético, um personagem importante tem uma morte anunciada três vezes e em nenhuma delas se faz sentir necessária e, não menos importante, as decisões antes lógicas de Dexter mais uma vez viram uma muleta manipulativa para que os roteiristas criarem uma fumaça densa de possibilidades em torno da conclusão da história que tristemente, assim como o temporal que avançava sobre Miami, revela que no fundo não continha nada por trás.

Se salvando em apenas uma sequência que finalmente coloca Dexter sob os olhares críticos dos executores da justiça, é possível com apenas uma palavra resumir toda a bagunça criada em torno do destino dos personagens: covardia. Se por um lado (eu falei que tinha spoilers, certo?) Dexter cometeu maldades demais em sua vida para merecer uma vida normal pela frente por outro Hannah contém não apenas um passado de mortes, mas ainda agia por puro oportunismo. Pior: não concordando com um final feliz para o serial killer também o roubam o final triste demais. E por falar em triste demais, o que dizer de Débora, que passou duas temporadas atormentada por estar acobertando os crimes do irmão e ser forçada a tomar uma decisão terrível que a fez matar uma inocente? Ela, sim, é digna de morrer jovem, abandonada em sua inconsciência?

Enfim, inconsistências em cima de inconsistências tornam “Dexter Season Finale” algo infundado e indigno da construção de seus personagens, pelo menos a construção de Michael C. Hall, que faz aparentemente o impossível para tornar cada momento de seu protagonista, por mais insano e ilógico que pareça, digno de ser visto, lembrando um Christopher Reeve em Supermans III e IV. A única redenção possível para Dexter e uma defesa de seus últimos passos, pelo visto, reside apenas na bravura e coragem do seu intérprete.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2014-11-09 imdb