Dez

Wanderley Caloni, March 31, 2019

Limitados pela visão do banco do motorista e do passageiro de um carro acompanhamos uma mulher em sua nova vida. Divorciada com um filho que não a apoia ela conversa com algumas pessoas. O filme é tão realista que perde a graça na segunda ou terceira conversas de “Dez” que o diretor Abbas Kiarostami quer nos mostrar, divididas por um contador regressivo super-brega.

Kiarostami parece de vez em quando experimentar uns conceitos que não vão para a frente, mas o Cinema só se move se alguém arrisca. Em seu último filme antes de morrer, 24 Frames, ele fez um filme adoravelmente tedioso sobre um experimento visual. Aqui ele é mais humano, e de tanta humanidade acabamos por ficar entediados.

Mas há bons momentos nas conversas montadas pelo diretor/roteirista. Os melhores saem da boca do jovem Amin (o hoje ator, diretor e roteirista Amin Maher), cuja espontaneidade e temperamento marcam o tom cômico das conversas que desenvolve com a mãe. No começo tendemos a achar que Amir tem razão sobre a impertinente mãe, que insiste em falar como está feliz hoje depois de se divorciar. Mais tarde começamos a questionar o quanto de cultura e valores está implítico nessa maneira de Amin enxergar a decisão de sua mãe.

Há outros momentos das conversas que nos faz abrir os olhos para esta realidade. Logo no começo sua mãe confessa que foi necessário mentir que seu ex-marido traficava drogas para conseguir se divorciar em um país de leis retrógradas. Depois ela conversa com uma prostituta que entra sem querer em seu carro (pensando que apenas um homem estaria na direção) e começa um diálogo sobre o que uma mulher realmente busca nos homens. E há, claro, sua amiga que não tem certeza se seu namorado quer se casar.

Mas tudo isso vem empacotado em um formato solto demais para forçar o espectador a raciocinar. Kiarostami espera com isso deixar sua argumentação o mais natural possível, como se não houvesse, como se isso não fosse Cinema. Mas é. Existe uma linha de raciocínio aí, como há em documentários da vida real. E ela começa a se revelar quando entram os temas de conversas femininas. O diretor não é tão bom em naturalizar essas conversas e muitos dos momentos começam a soar artificiais.

Porém, tirando isso, “Dez” é um trabalho experimental curioso e simples de acompanhar. Vale a curiosidade no circuito alternativo. E merece um pouco de paciência do espectador. Mais do que tem o temperamental Amir.

Imagens e créditos no IMDB.
Dez ● Dah. Irã, França, 2003. Falado em Persa. Escrito e dirigido por Abbas Kiarostami. Com Mania Akbari, Amin Maher, Kamran Adl. Cannes. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-03-31. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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