Divergente

Divergente é o Jogos Vorazes sem muita ação, sem muito drama, sem atuações e com pouca inspiração. No entanto, não deixa de ser um filme OK. Ele se mantém morno o tempo todo, mas aqui e ali existem momentos que prometem ser mais alguma coisa. Infelizmente, são apenas momentos. A apresentação do mundo distópico ocupa uma parte da história, e a tentativa da protagonista, Beatrice/Tris (Shailene Woodley de Os Descendentes), de não ser eliminada da facção que escolheu ocupa a outra parte da história. É necessário dizer que Tris é uma Divergente.

Agora, o que seria uma Divergente? Essa questão, tão essencial para toda a trama, parece não fazer tanto sentido se considerarmos que aquele mundo não está tão distante do nosso. Os prédios da cidade onde vivem estão aos pedaços, mas ainda de pé. Suas armas e trajes são ligeiramente diferentes. A história é a seguinte: depois de uma guerra, a sociedade resolveu se dividir em cinco facções distintas. Quando você atinge uma certa idade, deve escolher a qual facção irá pertencer pelo resto de sua vida. Existe um teste onde é possível detectar qual seria sua facção favorita, mas ainda assim você é livre para decidir, com a ressalva que, uma vez escolhido, não poderá voltar atrás jamais.

Isso me parece uma alegoria com alguma relação dos testes de aptidão e nossa escolha de uma profissão levada ao extremo. Uma ideia de uma aventura idealizada por um adolescente mimado que não sabe o que fazer da vida. Ele escolhe, então, descrever como nossa sociedade oprime a criatividade de todos ao nos dar rótulos prontos a ser escolhidos pelo futuro membro do mercado de trabalho. Porém, o problema de construção dessa distopia é a mesma de O Preço do Amanhã: ela simplifica demais a sociedade, tornando inviável acreditarmos que apenas com pessoas cuidando do exército (Audácia), da colheita (Amizade), da ciência (Erudição), das leis (Franqueza) e dos oprimidos (Altruísmo) seja possível erguer uma economia minimamente. É George Orwell (1984) colocado dos avessos: seria legal um mundo assim para explicar algumas coisas, mas não há muita justificativa do porquê as coisas são como são.

Onde voltamos para a questão: e daí ser Divergente? Hoje em dia, todos os humanos são “divergentes”, pois possuem múltiplas aptidões. Eu teria medo de um mundo onde as pessoas “naturalmente” nascessem com uma entre cinco habilidades, e apenas essas cinco. Já estaríamos falando de uma raça derivada dos humanos, mutação por radiação, qualquer coisa desse gênero.

No entanto, não importa. A revolução está para começar, e como sempre, existe um conflito se desenrolando entre duas facções rivais (isso sim é bem humano) e todos Divergentes precisam ser eliminados para garantir a estabilidade. Kate Winslet é a mentora da Erudição e é a melhor em cena, mas nem por isso convence dentro das absurdas premissas que se desenrolam, além de apenas a vermos sob o ponto de vista de Tris. Ela é gentil com ela, mas não há um motivo. Pelo contrário: seus pais são líderes da facção da Abnegação (Altruísmo), justamente a que está no comando e na mira de Winslet.

A ação final é o melhor momento do longa, pois algumas cartas finalmente são jogadas para cima. Quanto durou essa sociedade? Três meses? O espanto é que chegamos até aqui. Abriu-se uma franquia, e agora tudo faz sentido: a já conhecida tendência de não entregar tudo em um filme só, mas fazer parecer um capítulo bem fraco, um piloto, de uma série que pode ou não dar certo.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2014-05-13. Divergente. Divergent (USA, 2014). Dirigido por Neil Burger. Escrito por Veronica Roth, Evan Daugherty, Vanessa Taylor. Com Shailene Woodley, Theo James, Ashley Judd, Jai Courtney, Ray Stevenson, Zoë Kravitz, Miles Teller, Tony Goldwyn, Ansel Elgort. imdb