Divines

Eis mais um drama francês sobre a pobreza dos imigrantes e dos desprezados pelo sistema. Porém, este é o pano de fundo de uma história de uma amizade tocante entre duas amigas que compartilham tudo isso, e também uma pitada de romance porque… porque sim. Mas o rapaz é segurança de mercado e dançarino, o que já coloca um pouco de arte e a questão de gêneros na fórmula mágica esquerdista. Esse pessoal não perde tempo contando apenas um drama de cada vez.

A força-motrix dessa história é Dounia, uma garota magrela, petulante e esperta que é interpretada com energia por Oulaya Amamra. Ela é amiga desde infância de Maimouna, como deixa claro na química entre as duas, em um momento onde ambas brincam de andar em uma Ferrari imaginária. Maimouna é interpretada pela estreante Déborah Lukumuena e é um bom achado. Seu jeito espontâneo funciona perfeitamente neste conto de duas meninas que tentam alçar voo no mundo do crime com a sombra do perigo sempre as ameaçando.

Essa sombra simboliza não apenas o peso da vida que as duas levam, sem perspectiva nenhuma, mas também ilustra a vida “underground” das duas, sempre em becos, corredores estreitos e passagens secretas pelo submundo da periferia (o que também as coloca como abandonadas da sociedade). Há violência no filme o suficiente para torná-lo sério, para que entendamos que se estas duas brincam todo o tempo é para tentar amenizar o baque da vida real.

A posição que as duas arrumem são de tomar as rédeas da vida e não aceitar “esmolas”, como um programa de emprego de recepcionista. O que elas querem é o que todo jovem hoje em dia quer: vida fácil, emoções fáceis e muito, muito dinheiro. Não se trata de um pecado que o filme não explique para as duas as regras da realidade, já que a própria mãe de Dounia as subverte, fazendo graça e sendo demitida junto com ela da boate onde o filho trabalha.

A parte mais interessante da história é acompanhar a escalada das duas. Porém, não se trata de nada mais do que oferecer serviço para a traficante local, que por algum motivo surreal é mulher. Aliás, a diretora deste filme é mulher, o que coloca as expectativas mais realistas um pouquinho mais à esquerda. Escrito e dirigido por Houda Benyamina, fica claro do começo ao fim que o objetivo é manipular as emoções do público para um desfecho que os faça “pensar”: se alguém desse uma oportunidade para essas meninas, nada disso teria acontecido.

Mas a superfície idealizada de Benyamina não é tão trivial assim. Há uma sensação muito interessante no filme que tenta discutir como tudo se torna um círculo vicioso, e quase arranha um arco que lembra o muito mais poderoso Tropa de Elite, de José Padilha, que não entrega em nenhum momento respostas fáceis.

Aqui há algumas respostas fáceis, mas com um clima de desesperança tão contagiante quanto a felicidade efêmera das meninas. Sabemos que é difícil haver um final feliz, mas também sabemos que, havendo ou não, isso importa muito?

Dentro da dialética proposta por Benyamina não há outra opção para as meninas senão passar por necessidade e ter que lutar dentro do crime organizado por um pouco de “oportunidade”. É esse o destino de mentes inquietas que não aceitam o caminho convencional de ter que trabalhar. Afinal de contas, depois de viver na miséria quase completa (apesar de ter um iPhone), todos merecem uma chance de fazer a vida às custas dos outros criminosos.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-11-27. Divines. Divines (France, 2016). Dirigido por Houda Benyamina. Escrito por Houda Benyamina, Romain Compingt, Malik Rumeau. Com Oulaya Amamra (Dounia), Déborah Lukumuena (Maimouna), Kevin Mischel (Djigui), Jisca Kalvanda (Rebecca), Yasin Houicha (Samir), Majdouline Idrissi (la mère Myriam), Bass Dhem (Monsieur Camara), Farid Larbi (Reda), Maryama Soumare (Madame Camara). imdb