Django Livre

Django Livre é divertido moderadamente e possui um conteúdo pseudo-histórico de impacto que faz jus aos bons faroestes. Quentin Tarantino poderia ter futuramente — caso conseguisse controlar seu gigantesco ego — a mesma habilidade e maestria na direção que tornou Sergio Leone conhecido para sempre na história do Cinema.

Poderia, mas não é dessa vez.

Em plena época escravocrata do Sul dos EUA, a história gira em torno de Django (Jamie Foxx), um escravo que foi liberto por Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um alemão caçador de recompensas. Agora ele precisa resgatar sua esposa de uma das maiores fazendas de algodão da época, controlada por Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um escravagista absoluto que utiliza os escravos não apenas para o trabalho duro mas também para sua diversão pessoal e cruel, fazendo-os lutar até a morte tais como gladiadores romanos.

Só que para chegar nesse ponto o filme possui um longuíssimo prefácio que estabelece a relação de amizade entre Django e Schultz, além de criar e recriar ótimas cenas de ação que não apenas homenageiam o gênero, mas os principais diretores responsáveis por elevá-lo à sétima arte. A filmagem, feita com a técnica de CinemaScope que estabelece uma proporção de tela em torno de 2.35 por 1, torna tudo mais grandioso, assim como fez Sergio Leone em sua trilogia dos dólares. Mesmo assim, uma das cenas mais emocionantes tem sua finalização em uma tela quadrada, limitadas pelas portas de um celeiro e que juntam os dois protagonistas de maneira definitiva, o que comprova o conhecimento e a experiência do diretor em não ignorar o uso inteligente do espaço na tela.

Porém, estamos em um filme Tarantinesco feito por Tarantino, e é lógico que os seus absurdos estão espalhados por toda a narrativa, como os dois fatos indissociáveis de Django atirar bem desde o primeiro momento em que pega em uma arma e os seus alvos explodirem em jorradas de sangue esteticamente impecáveis. Esse não é um problema, mas um detalhe de seu cinema autoral e que aqui se mescla com as técnicas emprestadas do próprio Leone e que também eram utilizadas como combustível para nossa imaginação, o que faz com que qualquer cena mais ou menos exagerada seja assimilada como um jogo de estilo. Já as cenas cruéis e violentas fazem parte do repertório do diretor, que consegue criar a tensão justamente escondendo os detalhes sórdidos dos atos iniciados por Calvin Candie, onde um homem devorado por cachorros é muito mais traumático de se ver na expressão estarrecida das pessoas em volta do que diretamente.

Voltando aos detalhes culturais, a visão de Calvin Candie sobre o mundo é similar aos romanos instruídos, que se sentindo deuses perante seus servos, se deixa fascinar pelo que seus “macacos de circo” conseguem fazer. Aconselhado, no entanto, por um Samuel L. Jackson irreconhecível, revela-nos a informação vital de quem está verdadeiramente no comando de suas ações. Com uma trilha sonora elegantemente escolhida e uma faixa de músicas que tenta sempre trazer o conflito para os tempos atuais, a mescla de carruagens passando ao som de um rap diz muito sobre a mistura cultural que no filme se configura e que tanto nos fascina pela possibilidade de mescla. Tarantino prova aqui, ainda que talvez inconsciente e de forma metafórica, que o que nos torna mais fortes como seres humanos é justamente essa mistura de épocas, de culturas e conhecimento. Além disso, utiliza de maneira brilhante a costumeira surpresa dos cidadãos que veem um forasteiro por suas bandas pela mesma estranheza a respeito de um negro em cima de um cavalo, provando por contrastre que a ignorância nunca é algo saudável.

Onde chegamos ao terceiro e decepcionante ato, onde talvez as participações inspiradas de Christopher Waltz e Leonardo DiCaprio tenham suas “parcelas de culpa”, pois em ambas as ausências tornam o personagem de Jammie Foxx obviamente obliterado. Porém, o que fica óbvio é que Tarantino mais uma vez sabota sua própria obra, colocando o seu ego à frente dos eventos e criando uma reviravolta extremamente incoerente com um dos seus personagens no momento mais crucial da sua história, parecendo que com o único objetivo de fazer-nos ver mais tiroteio e chuvas de sangue estilizadas. O efeito para os fãs do diretor pode até funcionar, mas para os fãs do Cinema é um verdadeiro soco para fora do filme, que fica ainda maior quando nos deparamos com o próprio Tarantino atuando.

Dizer que os últimos 20 minutos de filme estragaram toda a experiência é ser um tanto desonesto, mas não se pode negar que a maestria de Tarantino é tamanha que é incômodo constatar que esta foi boicotada por ninguém nada menos que… Quentin Tarantino.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-02-05 imdb