Dois Caras Legais

Shane Black (Beijos e Tiros, Homem de Ferro 3) costuma usar com eficiência o humor negro, além de brincar com situações bizarras entre seus personagens. Em Dois Caras Legais, essa situação fica ainda mais bizarra pela caracterização tão peculiar dos anos 70. São anos 70 de brincadeira, da geração pera-com-leite. Russell Crowe e Ryan Gosling são ótimos na química, mas não precisava colocar bigode, óculos escuros e uma conspiração capitalista, OK?

Até porque esses detalhes não fazem muita diferença. Os elementos da história são de clichês de filmes policiais da época, e divertem enquanto complexos. Porém, são descartáveis e quase desnecessários para a história. Sem complexidade a história seria ainda mais divertida.

E esse parece ser o único foco de Black. Investindo quase todo o tempo em gags envolvendo uma criança (Angourie Rice) em situação adulta (como falar com uma atriz pornô enquanto assistem seu mais novo trabalho, ou dizer “eu preciso de um drinque”, além de ser o clichê da criança que resolve tudo), o investigador falastrão Holland March (Gosling), que tem o tique de gritar exagerado como um personagem dos Trapalhões e ficar ridículo quando bebe (o que é bem frequente), e o matador de aluguel Jackson Healy (Crowe… really??) como o cara que conserta as cagadas de March, Dois Caras Legais está disposto a divertir a qualquer custo e sob qualquer pretexto.

Mas não me leve a mal. O filme tem o toque de cenas de ação em que o diretor se mostrou ligeiramente eficaz no medíocre Homem de Ferro 3. A primeira, a mais idílica, é a mais profunda. Um menino rouba a Playbou do quarto dos pais para no momento seguinte o carro conduzido pela musa da capa atravessar sua cozinha. A vemos obviamente nua, morrendo. É difícil explicar tudo que está por trás dessa cena, mas muito fácil perceber qual a mentalidade dos idealizadores e como a memória afetiva deles influenciou diretamente nos resultados.

Sem uma alma por trás da ação e piadas desenfreadas, Dois Caras Legais é uma experiência frenética e vazia. Sem nunca chegar aos pés da inventividade de Beijos e Tiros, esse trabalho de Black apenas se redime pelos tropeços em HF3. Que venha a continuação para os anos 80!

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-07-28 imdb