Dolores

Este é um filme feito para a televisão, com um orçamento aparentemente baixo, mas com grandes ideias. Ele repete os passos hitchcockianos e seus mistérios fantasiosos, mas com pouco jeito. Se tratando de um filme que é sobre a cópia perfeita da realidade, este Hitchcock queimou um pouco no forno.

Mas o maior problema seja a trilha sonora. Jörg Lemberg imita um Bernard Herrmann (Psicose, Um Corpo que Cai) em todos os acordes. Se torna quase um Psicose de Gus Van Sant, que reproduz com fidelidade o clássico de Hitchcock, quadro a quadro. Surge a estranheza dessa imitação, sobre um filme que é sobre imitação.

A história gira em torno de Georg Letterer, um modelador de miniaturas feitas com os mesmos materiais do original e com perfeição. Ele faz um avião da segunda guerra que voa de verdade, mas ninguém parece enxergar suas habilidades. Quando a atriz mundialmente conhecida Dolores Moor quebra seu carro bem em frente à sua casa e de seu irmão doente (que ele cuida assim como fez com sua mãe), Letterer tem agora uma nova cliente e uma nova obsessão: fazer uma réplica perfeita da casa da atriz.

O roteiro de Sebastian Feld tem várias esquisitices que não são suficientemente desenvolvidas, mas a história principal caminha independente disso. A fantasia daquela realidade, onde a réplica começa a ser o controle que Letterer possui sobre aquela casa – e, consequentemente, sobre seus ocupantes – é fascinante demais para que os detalhes importem tanto assim.

A direção de Michael Rösel é a maior virtude do filme, pois além de também replicar terrores famosos (A Mosca da Cabeça Branca), suas transições entre o modelo e a casa são sempre significativas. Filmando com uma profundidade de campo reduzida, mas sempre com um foco completo, a impressão é que cada vez mais aquelas pessoas perdem os detalhes que a tornam… pessoas, e os modelos, vistos em planos-detalhes, se tornam cada vez mais reais.

Não conseguindo extrair uma grande lição de uma grande ideia, o filme ao menos diverte e entretém de uma maneira empolgante e visceral. Ele não se atém à loucura de seu protagonista, mas parece alimentá-la cada vez mais. Um pequeno achado, esquecível, talvez, mas nunca a sua ideia.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-28 imdb