Doutor Estranho

Nov 17, 2016

Imagens

Algo vem me incomodando nos filmes da Marvel. Algo que normalmente passa batido em outros filmes menores: não há personagem nenhum nas histórias, exceto seu herói protagonista. Às vezes um vilão. Aqui há apenas um inicial anti-herói, cercado de pessoas que estão aí para falar o resto dos diálogos. São coadjuvantes. Normalmente possuem funções mais elaboradas do que descrever o universo onde se passa a história ou como o personagem é desagradável com as pessoas. Mas aqui fazem apenas isso. Mais um trampolim para mais um herói em uma grande cidade sitiada de supers. Dessa vez com magia.

Além disso, há a velha “forçação” de barra desse universo populado por Vingadores, Homens-Aranhas, deuses nórdicos e sei lá mais o quê com poderes especiais. São tantos poderes e tantos personagens que sempre aparece no ar a “leve” impressão de que tudo isso não faz o menor sentido. De qualquer forma, aqui estamos falando de multiversos (múltiplos universos) e forças ocultas da natureza que meros “mortais” como Homem de Ferro, Capitão América e Thor (ele é mortal?) não conseguiriam controlar contra as forças do mal.

E o mal aqui, mais uma vez, é palpável, tem forma e pode receber soco e golpes de energia. Não é lá muito inspirador, nem muito criativo, mas fornece alguns sacos de pancadas para as cenas intermitentes de ação enquanto a história dramática de seu personagem principal avança.

Benedict Cumberbatch é uma revelação britânica como Sherlock, e uma revelação surpreendente na nova série Star Trek. No entanto, ele não consegue fazer milagres com o papel que lhe é entregue por um pelotão de roteiristas tentando dar algum ar de vulnerabilidade ao cirurgião de sucesso que é desagradável com todos no melhor estilo House (a série). Nesse momento ocorre uma mescla no espaço-tempo entre House, Holmes (sua inspiração) e seus atores. Médicos, arrogância, casos incuráveis.

Porém, dessa vez, há magia. Quer dizer, formas diferentes de interferir no universo. Ou melhor dizendo, multiversos. Quando o inconsolável Doutor Estranho encontra sua mestra, a anciã, vivida seriamente por Tilda Swinton, tudo parece fazer sentido na cabeça desse gênio, mesmo que nada faça sentido para o espectador. O mundo como o conhecemos se altera de uma maneira mágica como Harry Potter, mas somos ensinados que tudo isso é cientificamente/metafisicamente possível.

O uso do 3D, assim como o mediano Troll (da Disney), é uma surpresa à parte, pois usa as sequências a la “A Origem”, em que diferentes partes do mundo se dobram, para criar diferentes níveis de profundidade na visão. Infelizmente, como tem que existir a versão 2D, continua usando a mudança de foco como uma forma de chamar a atenção do espectador, que se mescla com o que já é possível fazer em 3D: apenas enquadrar o que se deseja ver, com tudo em foco.

A trilha sonora de Michael Giacchino é uma vergonha, como de costume. Flerta imitar Star Trek ou algo que o valha munido de toques secundários pseudo-cômicos, mas o conjunto da obra parece uma salada de estilos que perde personalidade e, se tornando um tema genérico que escapa facilmente da memória, não consegue nunca convencer, apenas aborrecer.

Um fato divertido: Doutor Estranho já teve um filme em 1978, onde era visto como um feiticeiro. Não assisti ao filme. Porém, algo me diz que ele deve ser mais divertido justamente por não levar tanto a sério essa baboseira de multiversos. A Marvel também vem me incomodando de outra forma: ela nunca é engraçada. E sequer é divertida. É uma sucessão de heróis que vem chegando sem nenhuma emoção diferentes do prazer estético da computação gráfica. Quem sabe um dia toda essa energia se junta e gera um filme de verdade?

Wanderley Caloni, 2016-11-17. Doutor Estranho. Doctor Strange (USA, 2016). Dirigido por Scott Derrickson. Escrito por Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill, Steve Ditko. Com Benedict Cumberbatch (Dr. Stephen Strange), Chiwetel Ejiofor (Mordo), Rachel McAdams (Christine Palmer), Benedict Wong (Wong), Mads Mikkelsen (Kaecilius), Tilda Swinton (The Ancient One), Michael Stuhlbarg (Dr. Nicodemus West), Benjamin Bratt (Jonathan Pangborn), Scott Adkins (Lucian / Strong Zealot). IMDB.