Downhill

2016/12/15

Este é o quinto filme dirigido por Alfred Hitchcock, um dos três filmes que ele dirigiu apenas em 1927. Após The Pleasure Garden, seu primeiro, teríamos The Mountain Eagle, um filme perdido há mais de 50 anos. Já este quinto oferece algumas belas surpresas na direção, como uma câmera subjetiva alternada, além de algumas ótimas piadas ocasionais em um drama no melhor estilo “retorno do filho pródigo”.

A história é simples, mas de época. Dois amigos estão prestes a entrar em Oxford, mas ambos são seduzidos por uma garçonete, que os leva para a loja de doces onde trabalha e dança com eles. Um dos garotos a beija, mas o outro a evita. No dia seguinte o garoto que se manteve firme é acusado de assédio, e acaba sendo expulso do colégio. Desacreditado pelo pai, ele abandona sua vida e sai perambulando pela vida. O filme é sobre a sua queda gradativa, indo de um mundo de faz de contas ao palácio das ilusões perdidas. Cada período fora de casa é visto como um episódio à parte, até o verdadeiro fundo do poço.

O roteiro, escrito por três pessoas (contrariando os que dizem que essa é uma mania nova no Cinema), possui algumas tiradas interessantes quando discute as diferenças de classe, entre patrões e empregados, além de uma visão um pouco romântica da vida. O garoto, interpretado por Ivor Novello, usa a escola da época, mas possui uma expressão forte, que não necessita de muitos trejeitos.

A trilha sonora é um entretenimento à parte. Não sei se é a partitura oficial, mas ela é densa, correta, e pontua os momentos mais dramáticos empregando um ritmo às cenas. Note como o momento mais doloroso da história, o fundo do poço, é seguido por uma música com duas notas que vão e vem, como se não houvesse mais saída para a vida do garoto.

Hitchcock toma algumas decisões já inventivas para a época. Quando a garçonete se aproxima dos dois garotos para acusar um deles, vemos uma sequência da câmera subjetiva e a moça se aproximando. Quando o garoto começa a contar sua história para uma de suas clientes (em outro momento da história), é feita uma mescla entre os acontecimento e ele falando. Não são necessários muito entretítulos, e tenho a impressão de que houve muito menos do que comédias de Charles Chaplin, por exemplo. A ação é dinâmica, e não importa muito na maioria das vezes o que os personagens estão dizendo. Claro que isso depende do filme, mas a direção já ajuda a acertar o tom de cada conversa.

Note, por exemplo, como Hitchcock tenta inserir no mesmo quadro mais de um elemento. No camarim da jovem dançarina, por exemplo, há duas profundidades de campo. Vários momentos assim não necessitam de corte e podem ser acompanhados sem maiores problemas.

Downhill é mais uma história padrão daquela época que poderia ter sido contada em um teatro. O Cinema, no entanto, aos poucos vai elevando sua arte ao conduzir o espectador aos detalhes de cada cena, além de levá-lo para cenários realmente diferentes, muitas vezes com cenas externas. Olhe o garoto caminhando, perdido, de volta à sua cidade. Além do verdadeiro documentário que é observar as ruas de Londres, mais uma vez a mescla, aliada a uma câmera cambaleante, dá a sensação de perdido, mas não de bêbado. É nesses pequenos passos, muitos deles dados por Hitchcock, que o Cinema se aprofunda.

★★★★☆ Título original: Downhill. País de origem: UK. Ano 1927. Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Constance Collier. Ivor Novello. Eliot Stannard. Elenco: Ivor Novello (Roddy Berwick). Ben Webster (Dr. Dawson). Norman McKinnel (Sir Thomas Berwick). Robin Irvine (Tim Wakeley). Jerrold Robertshaw (The Rev. Henry Wakeley). Sybil Rhoda (Sybil Wakeley). Annette Benson (Mabel). Lilian Braithwaite (Lady Berwick). Isabel Jeans (Julia). Edição: Lionel Rich. Ivor Montagu. Fotografia: Claude L. McDonnell. Duração: 80. Razão de aspecto: 1.33 : 1. Gênero: Adventure. Tags: torrent

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