Dúvida

Baseado em uma peça de teatro escrita por John Patrick Shanley, que aqui também faz o papel duplo de diretor/roteirista. Conseguindo para os papéis principais Philip Seymour Hoffman como o padre Brendan Flynn, um orador com capacidade ímpar de sugar a atenção de seus fiéis, e Meryl Streep, como a severa irmã Aloysius Beauvier, que zela por regras que parecem ter sido definidas 2000 anos atrás. A história, pode-se arriscar, gira em torno dos dois conceitos que esses personagens representam, que não deveriam, mas parecem opostos na igreja católica: compaixão e tradição.

Quando a professora James (Amy Adams), a parte “inocente” da história, encontra indícios que possam revelar que a intimidade entre o padre e um dos seus alunos vai um pouco além do esperado — se é que você me entende nessas épocas de pedofilia — ela inconscientemente encontra também o estopim desse conflito que estava apenas esperando uma ocasião para ser revelada. Curioso notar as nuanças da história: não se sabe o que de fato ocorreu, e os indícios são tão firmes que a própria parte acusadora — irmã Beauvier — assume abertamente que não tem provas e nem argumentos neutros para resolver a questão: apenas “sabe” que foi assim.

Ora, essa sabedoria sem provas sempre foi a base de toda a fé cristã, e tem norteado papas e toda sua hierarquia abaixo para julgar o que é certo. E é aí que encontra-se o ponto mais forte da discussão aberta pelo filme: uma possível atualização da igreja católica envolveria a congregação a assumir sua própria ignorância perante fatos da vida real, deixando-se intrometer apenas nas questões de âmbito estritamente moral?

Embora seja um tema complexo e aberto a diversas interpretações e lados, o texto de Patric Shanley não se intimida, provocando e ao mesmo tempo sendo honesto o tempo todo para ambos os lados. O que está em julgamento não é a igreja católica, mas nossa fé e razão, a bondade pela humanidade inerente ao ser humano ou o uso da preceitos religiosos como bússola moral para qualquer situação. O clima fica ainda mais pesado com a participação da mãe do rapaz, em um dos diálogos mais inspirados (embora o menos realista, se considerarmos quem está proferindo frases com tamanha carga filosófica), onde coloca além da discussão moral o uso prático dessa moral no dia-a-dia dos outros mortais, as pessoas que estão no meio das trincheiras.

No entanto, Dúvida ganha de fato o panteão de grandes filmes ao assumir abertamente que não sabe a resposta para essas questões. E é ao assumir sua própria ignorância, mas não se furtar de discuti-la, que o filme ganha igualmente o direito a revisitas quantas vezes for necessário. Ou melhor dizendo, enquanto a religião continuar tapando o sol do conhecimento com a peneira da tradicionalidade.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-11-18. Dúvida. Doubt (USA, 2008). Dirigido por John Patrick Shanley. Escrito por John Patrick Shanley, John Patrick Shanley. Com Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Alice Drummond, Audrie Neenan, Susan Blommaert, Carrie Preston, John Costelloe. imdb