É Apenas o Fim do Mundo

Este filme é um estudo de personagem. E o personagem em questão é a família. Qualquer família. Ao mostrar os rancores gerados pela volta do filho pródigo, Xavier Dolan expõe mais uma vez seu lado pessoal, mas também o universaliza, em um trabalho simples, mas eficaz. Um tiro certeiro nas emoções humanas.

A história é simples: escritor famoso descobre que vai morrer e visita sua família depois de longa data para contar o ocorrido. Esse é o estopim que desencadeia uma série de diálogos e situações dentro de uma casa e que irão gerar desconforto para todos, que precisam remoer o novo membro, que de tanto tempo que não viam, parecia dado como morto. E mortos não incomodam. Ah, mas os vivos… esses sim, não deixam ninguém em paz. Basta existir para você gerar rebuliço.

E existir como alguém que venceu na vida, alguém de sucesso, é um martírio para todos os outros. A inveja institucionalizada pelo governo, aos poucos, de geração em geração, vai criando uma população de zumbis afetivos. Não se trata de desconforto por um ente querido que se afastou e agora é um estranho. Isso, também. Mas a questão principal, o cerne de tudo, o que gera todo esse ódio e desconforto, é porque alguém de sucesso da família volta para esfregar na cara de todos os perdedores, mesmo que parado, sem falar nada (um escritor sem palavras). Ele apenas existe.

O diretor/roteirista/outros mais Xavier Dolan gosta de gerar tensão pela tensão. É um cineasta intenso (talvez por sua jovialidade). Vemos isso em Matei Minha Mãe, e vemos seu controle absoluto na montagem em Amores Imaginários. Agora em “É Apenas…”, história baseada em uma peça de teatro, temos o palco perfeito para todo seu estilo controlador. O uso de uma profundidade de campo reduzida e closes faz com que a casa fique pequena, e nela se amontoe cinco pessoas. Em alguns momentos apenas uma está em foco, mas as outras estão lá, como vultos, sombras do passado, se amontoando umas atrás das outras. Vemos algums personagens que nunca olham de frente o visitante, como o irmão mais velho. Quando olha, é uma vez, e para dar um soco na cara. Um soco com punho cerrados e feridos. As marcas do passado machucam mesmo quando não nos podem atingir. Só por existir.

Marion Cotillard faz uma cunhada fascinada e petrificada de medo pela presença do convidado/familiar que não conhece direito e trata como Sr. Ela descreve o filho como se tivesse acabado de nascer, e não consegue dialogar por dois minutos de maneira normal. Os sustos recorrentes entre os dois marca a estranheza perpétua dentro de uma família. Ela, diferente do marido, ao menos tenta dialogar com os olhos, em uma longa cena reflexiva. O filme nos dá tempo para entender o que está acontecendo, mas é sutil demais para colocar em palavras. Portanto, veja com sensibilidade.

A irmã guarda em si não apenas a estranheza, mas a incompreensão de si mesma. Ela precisa estar chapada e ouvindo uma música da época em que se conheciam para conversar com o irmão. Junto da mãe elas protagonizam uma cena de humilhação que é a mais bela do filme, sob o som também de uma música brega. As pessoas se diminuem quando alguém que se recusa a se rebaixar apenas observa. Ainda assim, consegue extrair felicidade de um breve momento onde ninguém fala, apenas dança.

O grande contraponto, o verdadeiro protagonista do que está sendo discutido aqui, porém, reside nas costas do personagem de Vincent Cassel. Seu Antoine é desagradável na medida exata, pois fica a milímetros de ser caricato, e sua função de estragar a “felicidade” do reencontro é desempenhada a todo momento com um sarcasmo e uma irritação a milímetros de ser ridícula. Mas Antoine se mantém íntegro até o fim. Ele não sabe se expressar com palavras, e não sabe escutar também, mas sabe o que quer dizer. “Isso”, ele aponta com o dedo, uma palavra ou expressão ou estado de espírito que saiu flutuando da boca do irmão. Sua incapacidade de se expressar também é o que o torna tragável, mesmo que marginalmente. Antoine é aquela pessoa que não sabe falar, mas quando move os punhos, entendemos o que está querendo dizer.

Com uma trilha sonora tensa, de drama farsesco, além de uma fotografia que tenta atingir seus personagens de luz, embora na maioria das vezes enxerguemos seus perfis e suas sombras em uma casa escura, É Apenas o Fim do Mundo extrai de sua história particular um contexto necessário para entendermos todas as mágoas das pessoas que não conseguem se relacionar com o sucesso. Sim, é uma história de um ente querido que não visita mais sua família. Mas também é a história de toda a mediocridade tentando se relacionar com os iluminados. Em vez de se espelhar em quem dá certo, são os sentimentos negativos os únicos que conseguem sair de pessoas ocas, que aprenderam em sua cultura que é errado fazer sucesso e que é errado esfregar isso na cara dos outros. Nem que o esfregar na cara seja simplesmente existir. Vivemos em uma era onde existir é errado, se você é melhor que os outros.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-10-26. É Apenas o Fim do Mundo. Juste la fin du monde (Canada, 2016). Dirigido por Xavier Dolan. Escrito por Xavier Dolan, Jean-Luc Lagarce. Com Nathalie Baye (La mère), Vincent Cassel (Antoine Knipper), Marion Cotillard (Catherine), Léa Seydoux (Suzanne Knipper), Gaspard Ulliel (Louis-Jean Knipper), Antoine Desrochers (Pierre Jolicoeur), William Boyce Blanchette (Louis), Sasha Samar (Le chauffeur de taxi), Arthur Couillard (Petit garçon avion). imdb