Ed Wood

Talvez o fato do filme sobre Edward D. Wood Jr., o pior diretor de todos os tempos (eleito dois anos após sua morte), ser um dos melhores do diretor Tim Burton, acostumado a flertar com o gênero, seja algo inesperado, mas ainda assim propício para um tema tão metalinguístico. Além de ser a homenagem devida ao diretor trash mais cultuado de sua geração (ou talvez de toda a história do Cinema) o longa de Burton mergulha fundo na atmosfera dos filmes B, onde o fato de ser rodado em P&B ajuda, mas não é só: é fácil entrar nessa dimensão criada pelo diretor a partir de suas duas realidades. O diretor precisa brinca com o gênero e ao mesmo tempo é um narrador onisciente de produções típicas. Isso torna muito difícil não adorá-lo como o filme que representa a esperança dos menos afortunados da indústria do Cinema, mas que nem por isso deixam de ser amantes incondicionais da Sétima Arte.

É com essa devoção “artística” incondicional que conseguimos entender a mente de Ed Wood não como alguém uma pessoa de suas limitações — ele se compara a Orson Welles constantemente, citando o fato de assim como ele ser o produtor/diretor/roteirista/ator de seus filmes — e por isso mesmo tão disposto a entregar sua vida a qualquer chance que o permita produzir os seus filmes de acordo com sua visão. Ed representa como ninguém o ponto de vista de diretores quase sempre medíocres como Michael Bay (Transformers) ou Paul W.S. Anderson (Resident Evil): eles acreditam piamente estarem fazendo filmes bons.

O trunfo do filme é nos fazer concentrar na figura do cineasta como um realizador que através de sua criatividade e amizade com Bela Lugosi conseguiu produzir os filmes que queria. (O fato de Martin Landau viver Bela (aliás, de maneira assustadoramente tocante) também é uma jogada metalinguística de gênio, uma vez que Landau já participou de séries televisivas como Hitchcock Presents e Além da Imaginação, além, é claro, da série Missão Impossível original.)

Ao explorar essa amizade entre os dois cineastas consegue ao mesmo tempo apresentar a figura de Wood como um ser ingênuo de maneira orgânica e até natural, uma naturalidade crucial para que sua força impulsione o filme (além de tocante em vários momentos). Se Martin Landau quase rouba o filme, isso não acontece graças a uma entrega igualmente satisfatória de um Johnny Depp pré-Piratas do Caribe, que não apenas convence o espectador da existência de um ser bizarro como Ed como consegue compreender a proposta de Burton como uma história que se torna mais trágica à medida que acumulamos os seus momentos mais cômicos, invertendo exatamente a proposta original dos filmes de Wood, que visavam o terror/drama e acabaram virando comédias incidentais grotescas.

Porém, não é só com os dois atores que existe essa química. Com a ajuda de um elenco afiadíssimo Burton cria quase uma segunda realidade ao propor que a história de vida do diretor de filmes trash e sua equipe se confundem em uma realidade igualmente trash. Dessa forma, até participações duvidosas (como Sarah Jessica Parker, da série Sex and the City) são usadas a favor da narrativa, e é assim que um ser grotesco com um tom de voz idem (George ‘The Animal’ Steele, que de fato pertence ao mundo da luta livre) consegue se caracterizar como um ator de desempenho eficiente para Wood. Quando questionado se o fato dele quase levar a parede do cenário embora ao tentar atravessar uma porta não iria estragar o take, o diretor responde que prefere deixar assim pelo realismo: “na vida real, ele teria que lidar com esse problema constantemente”.

Aliás, a forma como Burton enfoca a óbvia falta de talento do diretor de maneira sutil (Burton é fã assumido de Wood) é tocante em vários sentidos. Conseguimos observar a propensão a erros do diretor/produtor desde as decisões iniciais do projeto (como ao aceitar qualquer ideia para seu filmes) até a escolha da posição da câmera e dos atores em cenas que obviamente falham em seu objetivo original para o que almejava (e Burton reaproveita as mesmas tomadas utilizando um ângulo que facilite entendermos as reais pretensões do diretor, quase uma releitura de seus fracassos). A forma como ele conduz suas cenas, sem nunca repeti-las e mandá-las direto pra impressão é o sintoma final onde é possível sentir toda a extensão do fracasso de Ed como realizador. No entanto, em vez de humilhar e descaracterizar o personagem como uma figura grotesca por si só, Burton prefere fazer comédia periférica igualmente grotesca (uma panela voando aqui, uma fuga muito doida de uma estreia ali).

Tendo dias para rodar filmes inteiros, a culpa pelos seus fracassos parece não residir apenas em Wood, mas na industria cinematográfica como um todo, e quase o coloca como posição vítima de um negócio lucrativo que coloca a arte em último lugar das suas prioridades (e não é difícil de imaginar que se estivesse vivo hoje ele se mataria com as atrocidades criadas pela tecnologia 3D, embora pudesse criar infinitos filmes com o baixo custo das produções digitais).

★★★★★ Wanderley Caloni, 2013-08-23. Ed Wood. Ed Wood (USA, 1994). Dirigido por Tim Burton. Escrito por Rudolph Grey, Scott Alexander, Larry Karaszewski. Com Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Jeffrey Jones, G.D. Spradlin, Vincent D'Onofrio, Bill Murray, Mike Starr. imdb