Efeito Borboleta

Efeito Borboleta é um desses filmes difíceis de defender, mas quem comprar a briga (como eu) pode encontrar uma fonte inesgotável de prazer. Prazer de defender a arte cinematográfica, mesmo às vezes através de sua própria imperfeição. Prazer me reconhecer que, mesmo com tantos defeitos, uma obra pode exibir virtudes que a tornam ímpares, ou pelo menos dignas de algumas revisitas. Há elementos particularmente fascinantes escondidos dentro do embrulho que é este filme, em um formato não muito bem empacotado.

Centrado na figura de Evan Treborn (na ordem cronológica do personagem, assim como os outros, Logan Lerman/John Patrick Amedori/Ashton Kutcher), um garoto que passa sua infância tendo blackouts, ou seja, brancos de memória, justamente em momentos particularmente tensos e potencialmente importantes do início de sua vida, acompanhamos seu desenvolvimento em três fases distintas: aos 7 anos, aos 13 e, sua fase final, aos 21. Além dele, há um círculo de amigos que irá fazer parte de toda a história em todas as suas fases. Há a confusa Kayleigh (Sarah Widdows/Irina Gorovaia/Amy Smart), seu irmão problemático Tommy (Cameron Bright/Jesse James/William Lee Scott) e o distante Lenny (Jake Kaese/Kevin G. Schmidt/Elden Henson).

Agora, por que me dou ao trabalho de citar todos os nomes envolvidos nesse projeto? Porque, diferente do que pode-se imaginar com o nome de Ashton Kutcher no papel principal, ele é, em conjunto com os adultos, as figuras menos interessantes do longa. Isso acontece porque a fase de blackouts das duas primeiras fases é realizada com muito mais capricho, o que é óbvio, pois são os momentos dramáticos dessas fases que irão ecoar no futuro desses quatro personagens (além da mãe de Evan, vivida por Melora Walters em todas as fases).

O roteiro e a direção é dos estreantes Eric Bress e J. Mackye Gruber, que não fizeram praticamente mais nada de destaque no Cinema desde então, no que se passaram 10 anos. O que é uma pena, pois adoraria vê-los em sua evolução da linguagem, pois em Efeito Borboleta está claro que eles não brilham tanto, pois há problemas sérios na condução de atores e na própria sequência das cenas. Em um dos inúmeros momentos em que vemos o médico responsável pelo caso de Evan e sua mãe sempre chorando, eles fazem questão de repetir a mesma cena da mãe chorando, uma cena completamente genérica que evidencia a falta de preparo em conduzir o elenco adulto, que por comparação fica muito aquém do extremamente competente elenco mais jovem.

A ideia por trás do filme é que Evan, ao ler os diários que escreveu como forma de terapia para seus brancos, consegue voltar no tempo, exatamente naqueles momentos que não se lembrava de ter vivenciado, e alterar o curso da sua história passada, fazendo com isso mudanças drásticas na história de vida dos quatro personagens principais. Tentando sempre conseguir com que todos fiquem bem, ele constantemente se vê na necessidade de voltar. Quer dizer, apesar do filme tentar mostrar um aspecto mais positivo nos motivos que levam Evan a viajar no tempo, sabemos com apenas cinco minutos pensando em suas decisões que sua motivação é completamente egoísta: no fundo ele quer ajudar a si mesmo e sua amada Kayleigh a sair dos inúmeros futuros alternativos em que ambos não conseguem ficar juntos, e mesmo quando em uma das alternativas ele consegue deixar todos os seus amigos bem, por ele não estar, parece inventar uma desculpa através de sua mãe para voltar novamente.

Embora simples, como todo filme de viagem no tempo está fadado ao fracasso de amarrar sua teoria. Porém, Efeito Borboleta consegue ser ainda pior, pois tropeça feio em questões óbvias. O que aconteceu, por exemplo, nas “versões originais” em que Evan desenha-se na prisão ou fazendo um vídeo erótico infantil? Ou não existe versão original? Esses fatos não são explicados. Porém, ao mesmo tempo, a coragem dos idealizadores em abordar temos como pedofilia de maneira tão franca é digna de aplausos, tanto que questões menores como essas acabam evaporando no decorrer da trama, mas não necessariamente ao pensar nessas questões depois que o filme acaba.

Ao mesmo tempo questões na história com um ótimo potencial filosófico são deixadas de lado para que este vire um enlatado thriller dramático. Seria fascinante, por exemplo, abordar esse aparente “balanço no Universo” que impede que exista um futuro onde todos estejam bem, fazendo com que alguém sempre tenha que carregar algum fardo na história (os quatro possuem versões). No entanto, o foco da história é o amor entre Evan e Kayleigh em cima de um drama criado nas diferentes dimensões de tempo/espaço, mesmo que este drama tenha que ser baseado na figura de Evan como adulto, um Ashton Kutcher que, repetindo frequentemente o seu olhar apalermado de lado, de drama vai de zero a negativo.

Então, o que torna Efeito Borboleta um filme digno de revisitas? É difícil descrever sem discorrer por cada quadro e cada momento-chave. Sua distinção entre os filmes se enquadra em momentos tensos que contornam um drama meio impessoal, quase analítico, da realidade humana. São os poucos olhares e gestos de Lenny em seu beco sem saída cósmico, ou a dor sempre presente em uma relação de abuso do pai de Tommy e Kayleigh. Por isso, fiquemos de olhos na evolução do filme conforme envelhecemos como espectador. Acredito que ele fique melhor a cada nova percepção da nossa realidade. Como os bons filmes devem ser.

Sem contar que o final se apresenta apenas 50% satisfatório. Para um dos tantos finais alternativos que acerta a coisa, dê uma procurada em seu DVD ou assista o vídeo abaixo (apenas após assistir o filme).

No entanto, ao vermos o final dos diretores, vemos que a questão filosófica do filme era uma premissa importante. Por isso que (spoiler!!) só no caso do protagonista se suicidar é que ele conseguiria entregar toda a felicidade possível de ser dividida com os envolvidos e todos estarem bem nesse futuro sem-Evan.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-06-13 imdb