Ela

Ela pode ser chamado de romance — mesmo que seja entre um ser humano e um sistema operacional — porque é basicamente um filme sobre relacionamentos. O roteiro e a direção de Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich) entram fundo na questão “o que torna uma pessoa atraente para outra” desintegrando a parte material e se focando no mundo das ideias; quase que um Antes do Amanhecer futurista.

Sim, estamos em um futuro, mas não tão distante, onde a inteligência artificial é uma realidade — ou seja, qualquer computador e celular entendem e respondem verbalmente a comandos — e as pessoas estão cada vez mais auto-centradas nelas mesmas (uma simples frase que desagrade o parceiro pode acabar com a noite inteira, elevando nossa “geração mi-mi-mi” a um novo patamar). Theodore (Joaquin Phoenix) é um “escritor de cartas manuscritas”, uma profissão aparentemente nova que já acusa a falta de esforço das pessoas em agradar seus entes queridos. Ele resolve experimentar um novo sistema operacional (dublado por Scarlett Johansson) que, de acordo com o anúncio publicitário, promete ajudar a revelar seu próprio eu através de um software auto-consciente que consegue se relacionar com seus usuários exatamente porque depois de instalado ele continua aprendendo com o mundo e seu usuário.

O mais precioso no roteiro do próprio Jonze é que, se a princípio a premissa de se apaixonar por um software parece absurda, na “prática” as coisas acontecem de maneira tão natural, sutil e sensível que não existe muito espaço para humor (apesar, claro, dele obviamente existir aqui e ali), e é isso que torna sua narrativa tão ambiciosa e dramática. Rimos de algumas situações, mas na maioria delas ela nos faz pensar, e muito, sobre o que somos nós além de carne apodrecendo que possui o privilégio da auto-consciência por um período curto de tempo. Na verdade, esse filme merece muito mais o título “Quem Somos Nós” do que o trabalho picareta de pseudo-ciência, pois em vez de entregar respostas simplistas são elaboradas mais perguntas, a cada passo permeando nossa filosofia da existência e co-existência. No entanto, nada disso torna o filme difícil, apenas diferente. E é esse diferente que vale a pena sentir.

Se a história já encanta, o mesmo pode-se dizer do design de produção e da construção de personagens, que delineia um futuro sutilmente cínico, ou às vezes descarado, como um monumento de um Boeing 747. As cores são básicas e parecem infantilizar os ambientes e as pessoas, além de inserir o vermelho como praticamente o tema de Theodore. As cores e as pessoas não evitam ser vulgarmente sinceras sobre qualquer aspecto, o que representa para mim o detalhe mais especial do longa, que é inteligente ao projetar uma ou duas décadas à frente entendendo o conceito de que, para nós, aquelas pessoas pareceriam mais “explícitas” do que nossa sociedade atual. Ironicamente, mesmo com tamanha “franqueza” dificilmente elas se entendem ou conseguem ser felizes, ainda que não existam julgamentos dos outros; um fruto hipoteticamente benéfico do nosso cada vez mais crescente egocentrismo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-03-07. Ela. Her (USA, 2013). Dirigido por Spike Jonze. Escrito por Spike Jonze. Com Joaquin Phoenix, Lynn Adrianna, Lisa Renee Pitts, Gabe Gomez, Chris Pratt, Artt Butler, May Lindstrom, Rooney Mara, Bill Hader. imdb