Ele Está de Volta

Um filme que corre o risco de ser apenas alemão. Falado em alemão, dirigido na Alemanha (Berlim) e com uma figura “popular” cujo significado de “diabólico” se tornou universal, mas só o povo que o gerou, décadas depois de doutrinação em escola pública, “conhece” de fato, Ele Está de Volta tenta ser uma comédia com fundo de moral, utilizando Adolf Hitler como um mero joguete, além de um fiapo de roteiro que utiliza a voz da televisão (e da internet) como o novo arsenal político. Um filme feito pela esquerda para a esquerda, que acredita piamente que o nazismo é de extrema direita e que só o lado direito está recheado de agressão e perversão.

E, é claro, é um filme para defender os pobres imigrantes.

Dirigido por David Wnendt (“Zonas Úmidas”), que co-roteiriza com nada menos que cinco pessoas, a história começa quando Hitler acorda de um sono profundo em 2014, bem no local onde foi seu bunker dos dias finais da Segunda Guerra. Aos poucos se adaptando à realidade de uma nova era (embora não pareça se importar com muitas das diferenças, nem com ter viajado no tempo de maneira assombrosa), Hitler (Oliver Masucci) encontra suporte em Fabian (Fabian Busch), um cineasta/video-amador fracassado que tem um bom coração, é tímido e mora com a mãe. Realizando uma viagem com Hitler para… bem… campanha?, os dois passam por alguns momentos engraçadinhos que seriam engraçadinhos com qualquer figura pública, não particularmente Hitler. É que a figura do ditador (eleito democraticamente) é fascinante demais para o povo alemão, cercado de tantas proibições (inclusive seu livro autobiográfico) que dá a sensação de ser algo além do que um baixinho que representava a opinião de milhões de alemães àquela época.

E que pode estar representando agora. Tentando unir as recentes ideias extremistas da Europa frente à crise financeira e à vinda massiva de imigrantes, que se aproveita das benesses de um governo socialista – com prazo de validade vencido – Hitler acaba sendo um pop star na televisão, na internet e nos jornais. Como que um efeito mola, o que era inadmissível se torna novamente a voz do povo. Em torno disso há uma história bobinha envolvendo uma guerra de diretores da emissora (chamada MyTV… OMG) e um romance batidíssimo entre o Fabian e a recepcionista.

O pior no filme não é sua ideia principal, que de certa forma, é válida e interessante. Porém, muito mal executada. Não há muita inspiração nos “novos” discursos do baixinho, que era conhecido por eles, e o efeito que ele gera na plateia, desproporcional. Dirigido como se fosse um pseudo-documentário, não consegue, como muitos pseudo-documentários, seguir à risca as regras do jogo, revelando seu amadorismo em tomadas impossíveis, como o ponto de vista de um cachorro que é morto pelo alemão.

Há momentos engraçadinhos, momentos WTF e momentos pseudo-solenes que tentam emplacar um drama. Nenhum deles funciona muito bem, e juntos causam desperdício de tempo e esforço. Hitler original, o original mesmo, deveria ter sido um pouco mais interessante para conseguir milhões de seguidores. E não estou falando do Twitter.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2016-04-16. Ele Está de Volta. Er ist wieder da (Germany, 2015). Dirigido por David Wnendt. Escrito por David Wnendt, Minna Fischgartl, Timur Vermes, Marco Kreuzpaintner, Johannes Boss, Collin McMahon. Com Oliver Masucci, Fabian Busch, Thomas M. Köppl, Marc-Marvin Israel, David Gebigke, Paul Busche, Michael Kessler, Gerdy Zint, Nancy Maria Brüning. imdb