Elefante Branco

Novo filme do diretor Pablo Trapero (Abutres) traça na rotina das pessoas que ajudam uma favela a construir moradias dignas para seus habitantes um panorama fiel não apenas dos moradores — acostumados a viver às margens de uma sociedade que escolheu convenientemente ignorá-los em um terreno delimitado — mas da sociedade como um todo. E os que não são mostrados no filme obviamente são os que ignoram essa triste realidade.

O Elefante Branco do título se refere a um hospital que nunca terminou de ser construído no mesmo terreno onde hoje moram cerca de 30 mil pessoas em condições precárias. O projeto do hospital passou por duas democracias e uma ditadura sendo que hoje repousa apenas um esqueleto que faz sombra aos casebres ajuntados. Desse fato duas curiosidades fascinantes também se erguem logo no início do longa: 1) a figura de um hospital inacabado faz rima com os programas sociais inacabados que deixaram a favela se alastrar e permanecer na área e 2) a própria definição de dicionário de elefante branco pode ser aplicada aos moradores, pois governo nenhum soube o que fazer daquelas pessoas vivendo à margem da sobrevivência por décadas a fio.

A presença de um jovem padre recém-chegado, um padre veterano e um padre morto representa não apenas a desesperança de dias melhores, mas a sua desconstrução, como se a simples existência da religião naquele lugar fosse a prova do descaso de Deus com aquelas pessoas. Portanto, faz todo o sentido elas estarem constantemente cansadas e com medo. Não se enxerga saída em nenhum momento, e o que soa mais cruel é essa alegoria da vida real. Os moradores também participam do jogo, pela sua inércia e apatia.

Trapero não diz nada disso, mas mostra através de sons e imagens. O som ecoa e aumenta o seu “grito” em momentos específicos da trama como a querer chamar a atenção do resto do mundo. As belíssimas sequências estão cumprindo a função de nos mostrar extensão: no início a extensão da própria favela (miséria); no protesto dos moradores a extensão da opressão; e, por fim, na irretocável sequência da fuga de carro, a extensão daquele destino que parece insistir em se repetir, imutável.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-02-06. Elefante Branco. Elefante blanco (Argentina, 2012). Dirigido por Pablo Trapero. Escrito por Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre, Pablo Trapero. Com Ricardo Darín, Jérémie Renier, Martina Gusman, Miguel Arancibia, Federico Barga, Esteban Díaz, Pablo Gatti, Walter Jakob, Raul Ramos. imdb