Elementary (piloto)

E por que ele não é Sherlock? Cinema e televisão são linguagens que vão evoluindo com o passar dos anos, das produções e dos espectadores. Todos que gostam de séries de investigação já assistiram pelo menos um episódio ou ouviram falar de C.S.I., Bones, Law & Order e tantos outros – onde até Sobrenatural se encaixa. Todas essas séries confiam em uma fórmula que existe no Cinema há muito tempo e é usado em praticamente qualquer filme, mas que em investigação se torna muito óbvio: primeiro há um caso, depois o protagonista demonstra como é esperto, depois há uma reviravolta e ele se mostra errado para depois descobrir no terceiro ato que ele estava certo desde o começo ou descobriu coisas novas que o levaram a acertar por último quem era o culpado.

A série americana Elementary recria o personagem Sherlock Holmes em Nova Iorque e introduz um Dr. Watson mulher (Lucy Liu). O que poderia ser interessante pela mudança de ares e época se torna desde o piloto um exercício de frustação com a ajuda da sempre defasada linguagem televisiva, que gasta mais uma vez o personagem icônico de Conan Doyle à toa, empregando artifícios já vistos em todas as séries citadas.

Vejamos: Sherlock, assim como todos os protagonistas dessas séries, verbaliza o que está pensando. Ele e Watson conversam revolvendo tudo que está acontecendo em suas cabeças através unicamente de diálogos. Sherlock explica coisas demais, fala demais, e se torna o que ele sempre detestava: tédio.

Pelo menos a série não é inútil por completo, pois serve de comparação com a contemporânea Sherlock, da BBC. É possível ver onde os criadores da série acertaram em sua caracterização em Londres atual. O mais óbvio foi abandonar os clichês de séries de investigação, sendo o mais importante deles o de verbalizar demais, algo inapropriado e incompatível com o morador da 221B Baker Street. Na série britânica vemos o detetive analisando a cena do crime e acompanhamos como espectadores suas observações através de marcações na própria tela. Os outros personagens que o acompanham sabem muito menos do que nós, e nós não sabemos muito bem o que fazer com o que compartilhamos com o protagonista até sua revelação. Isso dá a exata dimensão do poder de dedução do detetive sem exposições desnecessárias. Ao mesmo tempo, Watson continua sendo uma pessoa ingênua, mas com muita emoção e carisma, o que evita que ele se torne entediante para o detetive e para nós (além de render ótimas sequências apenas com sua participação). A Watson de Lucy Liu está completamente à mercê do detetive e não consegue construir uma personalidade nem de perto atraente para que faça parte das investigações, e por mais diálogos expositivos que coloquem isso não deve mudar.

Vejam bem, eu disse “deve”, já que estou apenas comparando o piloto de Elementary com a série Sherlock inteira. Porém, me lembro perfeitamente de cada detalhe no piloto de Sherlock para saber que ambos são perfeitamente comparáveis desde seu suspiro inicial. Elementary não me inspira nenhum tipo de progresso na linguagem das séries de investigação. É mais um insulto americano a um personagem icônico.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-01-11 imdb